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sexta-feira, 13 de abril de 2018

Comentário sobre a Parábola das Dez Virgens



Não é exagero dizer que o tema da “Parábola das Dez Virgens & Clamor da Meia-Noite” é um dos mais essenciais para o adventismo de hoje, bem como um dos temas mais carentes de estudo aprofundado.
A presente literatura que está agora ao alcance do leitor, chega a fim de remediar a falta de materiais que se aprofundam na aplicação profética desta parábola. Aplicação esta que tem relação intima com a história do movimento adventista.
Por que seria esse assunto um dos mais essenciais para nossos dias?
Antes de ser respondida esta pergunta, devemos analisar alguns textos da pena de Ellen G. White:

“A maior e mais urgente de todas as nossas necessidades é um reavivamento da verdadeira piedade entre nós. Buscá-lo deve ser nosso primeiro trabalho”. Review and Herald, 22 de março de 1887. Serviço Cristão, pág. 41.

Definida a maior e mais urgente necessidade, devemos agora entender a diferença de reavivamento e reforma. A mensageira do Senhor nos explica nas seguintes palavras:

“Precisa haver um reavivamento e uma reforma, sob a ministração do Espírito Santo. Reavivamento e reforma são duas coisas diversas. Reavivamento significa renovação da vida espiritual, um avivamento das faculdades da mente e do coração, uma ressurreição da morte espiritual. Reforma significa uma reorganização, uma mudança nas idéias e teorias, hábitos e práticas. A reforma não trará o bom fruto da justiça a menos que seja ligada com o reavivamento do Espírito. Reavivamento e reforma devem efetuar a obra que lhes é designada, e no realizá-la, precisam fundir-se”. Review and Herald, 25 de fevereiro de 1902. Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 128.

A partir dessas conclusões, cabe a nós descobrirmos que mensagem deve ser anunciada a fim de provocar um reavivamento, e por consequência uma reforma, visto que, o reavivamento operado pela guia do Espírito Santo, leva necessariamente, a frutos de justiça.
Tal como é comentado em “Nosso Fundamento e História”, temos, como movimento, dedicado bastante tempo ao estudo da Parábola das Dez Virgens. Isto não deve ser entendido como mero capricho humano, pois isso, é devido à clara instrução do Espírito de Profecia de considerá-la mais do que apenas uma simples parábola.

Veja o que a pena inspirada diz:

“Algumas vezes tem-me sido citada a parábola das dez virgens cinco das quais eram prudentes e cinco loucas. Esta parábola foi e será cumprida ao pé da letra, pois tem uma aplicação especial para este tempo, e, como a mensagem do terceiro anjo, tem se cumprido e continuará a ser Verdade Presente até o fim do tempo”. Review and Herald, 19 de Agosto de 1890.

“Todos detalhes desta parábola devem ser cuidadosamente estudados”. Review and Herald, 31 de Outubro de 1899.

“Todos precisamos estudar como nunca antes a parábola das dez virgens”. Man. 140, 1901. Comentário Bíblico, Vol. 4, pág. 1.179.

A partir destes conselhos inspirados, somos instados a nos determos, obedientemente, em um exame detalhado de cada ponto desta parábola.
De acordo com o que lemos, se atesta que a parábola foi cumprida no passado, na experiência dos adventistas mileritas, debaixo das mensagens do primeiro e segundo anjo, e que seria cumprida novamente, debaixo da mensagem do terceiro anjo, e que iria até o fim do tempo como Verdade Presente.    Neste ponto, já adentramos em um entendimento que quase sempre é negado pelas igrejas do adventismo, isto é, de que esta parábola têm duas aplicações proféticas. Tais igrejas crêem só em uma aplicação lá no passado, em 1844.                                                                                                                                        

  

Uma exceção destacada está no livro “101 Respostas a Perguntas do Dr. Ford”, editado pelo IAE (Instituto Adventista de Ensino - SP). No livro é exposto o fato de que Desmond Ford criticou a divina inspiração de Ellen G. White. Pretendendo provar que ela teria entrado em contradição algumas vezes em seus escritos, ele cita um exemplo ao afirmar que ela aplicara a parábola para 1844, e também, para o tempo do fim. Nas páginas 80 e 81 é revelado que diante deste impasse, os autores admitiram duas aplicações da parábola das dez virgens. O lamentável é este reconhecimento ter sido apenas em uma circunstância atenuante, em vez de fazer parte do estudo profético da igreja.
                                                                                                                                                       
Esta nossa literatura chega ao povo do advento com o sincero e solene propósito de reavivar os crentes na tríplice mensagem angélica, preparando assim um povo para estar em pé na grande crise final.
Com esta publicação temos a fervorosa esperança de que muitas pessoas sejam despertadas pela mensagem do clamor da meia-noite. Esta mensagem é o ponto central a ser descoberto no estudo.
Alguém pode estar se perguntando a esta altura: “não seria a mensagem da justificação pela fé a mensagem a ser apresentada para que ocorra o reavivamento?” Sem dúvida alguma!
Em todos os tempos, em todas as igrejas, a justiça de Cristo sempre é a mensagem decisiva para o futuro de uma igreja. No entanto, esta mensagem da graça pode ser apresentada de diversas maneiras. Ela não está presa a uma forma. Portanto, toda vez que falamos do óleo das virgens da parábola, estamos tratando do fator decisivo para a nossa salvação, ou seja, a atuação do Espírito Santo em nós.
Vale ressaltar que o propósito de Deus de nos ter dado esta parábola profética não é o de apenas nos conceder uma nova forma de expor a mensagem da salvação. O Senhor quer informar a Sua igreja dos últimos dias acerca do momento específico da história terrestre em que ela se encontra. Fazendo isto, Ele tenciona alertar para o preparo que nos é requerido por vivermos no grande dia da expiação final e do juízo investigativo (GC 480, 489). 
            
Ao decorrer do estudo surgirá perguntas, tais como:                                                                          

Quando começou a pregação da mensagem do primeiro anjo?

Por que o clamor da meia-noite causou o surgimento do movimento do advento separado das igrejas em 1844?
                                                                                                                                                       
O que iniciou primeiro, o segundo anjo ou o clamor da meia-noite?

Como provamos a existência de uma aplicação da parábola em nosso tempo?

O que é o clamor da meia-noite para nossos dias? 
                                                                                       
As virgens loucas dormem novamente durante o clamor?
                                                                             
Quando se dará o selamento do povo de Deus conhecedor que não está em Babilônia – antes ou depois do decreto dominical?
                                                                                                                                                      
A vinda do anjo de Apocalipse 18 se dará por ocasião de que evento?

Quando uma igreja que Deus escolheu se torna infiel, Ele escolhe outra? 
                                         

Estas e muitas outras perguntas são respondidas com a iluminação da Bíblia e do Espírito de Profecia. Convidamos o leitor a analisar esta mensagem de bom grado no espírito de cristãos bereanos.
Destacamos ainda, que o leitor têm para seu auxílio durante todo o estudo, dois diagramas proféticos com os principais eventos analisados.

Para concluirmos, lemos nos Testemunhos uma exortação a um melhor estudo do plano da redenção, principalmente quanto à parte final, a fim de preparar um povo que terminará a obra:

“O grande plano de redenção, conforme revelado na obra final para estes últimos dias, deve ser cuidadosamente estudado. As cenas relacionadas com o santuário celestial devem de tal modo impressionar o espírito e o coração de todos, que estes sejam capazes de impressionar também a outros. Todos precisam compreender melhor a obra da expiação que está sendo efetuada no santuário do Céu. Quando essa importante verdade for reconhecida e compreendida, os que a abraçaram trabalharão de acordo com Cristo, a fim de preparar um povo que esteja em pé no grande dia de Deus e seus esforços serão bem-sucedidos.
         Pelo estudo, meditação e oração, o povo de Deus será elevado acima do nível das idéias e sentimentos comuns e terrenos, e posto em harmonia com Cristo e Sua grande obra de purificação no santuário celestial. Sua fé O seguirá até dentro do santuário, e Seus adoradores na Terra terão o cuidado de passar em revista a sua vida, aferindo o seu caráter pelo grande padrão de justiça. Descobrirão seus próprios defeitos e reconhecerão também que necessitam do auxílio do Espírito de Deus a fim de estar habilitados para a grande e solene obra do presente tempo, que Deus impôs aos Seus embaixadores”. Ano: 1889. Testemunhos para a Igreja, Vol. 5, pág. 575.

(Acesse a publicação da Parábola das Dez Virgens, bem como seus diagramas, clicando aqui).

(Para conhecer a história e doutrinas do Movimento, acesse clicando aqui).

sábado, 14 de junho de 2014

O Plano da Divindade para a Redenção da Humanidade

O Plano da Redenção já havia sido feito antes da Criação da Terra

Antes que os fundamentos da Terra fossem lançados, o Pai e o Filho Se haviam unido num concerto para redimir o homem, se ele fosse vencido por Satanás. Haviam-Se dado as mãos, num solene compromisso de que Cristo Se tornaria o fiador da raça humana. DTN 834.

O Próprio Deus tinha que ser
o Penhor e o Substituto da Raça Humana

Visto ser a lei de Jeová o fundamento de Seu governo no Céu assim como na Terra, mesmo a vida de um anjo não poderia ser aceita como sacrifício por sua transgressão. Nenhum de seus preceitos poderia ser anulado ou mudado para valer ao homem em sua condição decaída; mas o Filho de Deus, que criara o homem, poderia fazer expiação por ele. Assim como a transgressão de Adão tinha trazido miséria e morte, o sacrifício de Cristo traria vida e imortalidade. PP 66-67.
Morrendo sobre a cruz, Ele transferiu a culpa da pessoa do transgressor para a do Substituto divino, por meio da fé nEle como seu Redentor pessoal. Os pecados de um mundo culpado, que em figura são descritos como sendo "vermelhos como o carmesim" (Isa. 1:18), foram atribuídos ao Penhor divino. MM, Ano: 1995, Cuidado de Deus, pág. 275.
Caso Deus Pai tivesse vindo ao Mundo e se Encarnado, teríamos a mesma História que nós temos Hoje com Cristo

Tivesse Deus, o Pai, vindo ao mundo e habitado entre nós, humilhando-Se, velando Sua glória, a fim de que a humanidade O pudesse contemplar, não se haveria mudado a história que temos, da vida de Cristo. MM, Ano: 1965, Para Conhecê-Lo, pág. 338.
O Trio Celestial estava envolvido no Plano da Redenção Os Três em Unidade decidiram que Cristo deveria ser o Salvador
A Divindade moveu-se de compaixão pela raça, e o Pai, o Filho e o Espírito Santo deram-Se a Si mesmos ao estabelecerem o plano da redenção. A fim de levarem a cabo plenamente esse plano, foi decidido que Cristo, o unigênito Filho de Deus, Se desse a Si mesmo em oferta pelo pecado. CSS 222.
Cristo Se Ofereceu para ser o Fiador e o Substituto do Homem

Nenhum dos anjos poderia ter se tornado fiador da raça humana: sua vida pertence a Deus; eles não podem depô-la. Todos os anjos encontram-se sob o jugo da obediência. São mensageiros indicados por Aquele que comanda todo o Céu. Mas Cristo é igual a Deus, infinito e onipotente. Ele poderia pagar o preço do resgate do homem. Ele é o eterno e auto-existente Filho, que não estava sob nenhum jugo; e quando Deus perguntou ‘A quem enviarei?’, Ele pôde responder: ‘Eis-Me aqui, envia-Me a Mim.’ Ele podia oferecer-Se como fiador do homem, pois era capaz de dizer aquilo que o mais elevado anjo não podia: ‘Eu tenho poder sobre Minha própria vida, poder para a entregar e ... poder para reavê-la’ Youth’s Instructor, 21 de junho de 1900. Comentário Bíblico, Vol. 5, pág. 1.136.
Não Lhe foi imposta a obrigação de empreender a obra da expiação. Ele fez um sacrifício voluntário. Sua vida era de suficiente valor para resgatar o homem de sua condição decaída. Review and Herald, 17 de dezembro de 1872. MM, Ano: 1992, Exaltai-O, pág. 24.

            De tanto melhor aliança Jesus foi feito fiador. Hebreus 7:22.

Cristo é o Nosso Penhor, Fiador, Substituto, e Mediador Somente Jesus pode ser o Mediador pois possui Divindade e Humanidade

Somente Jesus poderia ser fiador diante de Deus, pois era igual a Deus. Somente Ele poderia tornar-Se mediador entre Deus e o homem, pois possuía a divindade e a humanidade. Jesus podia, assim, dar a garantia a ambas as partes de cumprir as condições prescritas. Como o Filho de Deus, representa o nosso penhor diante de Deus, e como o Verbo eterno, igual ao Pai, assegura-nos que o amor do Pai se encontra à disposição daquele que crê em Sua palavra empenhada. Review and Herald, 3 de abril de 1894.
A reconciliação do homem com Deus somente poderia ser empreendida por um mediador igual a Deus, possuidor de atributos que O dignificassem e O declarassem digno de lidar com o Deus Infinito em favor do homem, e que também representasse a Deus diante do mundo caído. O substituto e penhor do homem necessitava possuir a natureza do homem, uma conexão com a família humana, a quem deveria representar; e, como embaixador de Deus, teria de participar da natureza divina, possuindo conexão com o Infinito, de modo a manifestar a Deus diante do mundo, sendo mediador entre Deus e o homem. Review and Herald, 22 de dezembro de 1891.
A plenitude de Sua humanidade e a perfeição de Sua divindade formam para nós um sólido fundamento sobre o qual podemos ser conduzidos à reconciliação com Deus. Foi quando ainda éramos pecadores que Cristo morreu por nós. Temos a redenção, o perdão dos pecados, através de Seu sangue. Suas mãos perfuradas por cravos estendem-se do Céu à Terra. Com uma das mãos Ele alcança os pecadores na Terra, e com a outra toca o trono do Infinito, efetuando assim a nossa reconciliação. Cristo se encontra hoje como nosso Advogado diante do Pai. Ele é o Mediador entre Deus e o homem. Carregando as marcas da crucifixão, Ele pleiteia a causa de nossas almas. 7BC 487.

E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória. I Timóteo 3:16.

terça-feira, 30 de abril de 2013

A Psicologia dos Mártires

Como entender a mente de um mártir? O que faz alguém manter a fé pela qual é torturado?

“Mártir”(do grego martys, “testemunha”) é alguém que é morto por causa de sua fé, pelo simples fato de professá-la. A princípio, o termo era aplicado aos cristãos que sofriam torturas ou a morte por sustentar suas crenças. No entanto, com o passar do tempo, a palavra incorporou outros conceitos. Morrer pela pátria, pela liberdade, pela independência, pela autonomia de um povo, por um ideal social ou político, ou até mesmo em uma guerra são ideias que passaram a fazer parte do significado da palavra mártir. Neste artigo, falaremos sobre os mártires cristãos.

Torturas e tormentos –Quando pensamos nos mártires do cristianismo, quase sempre nossa mente se reporta ao Coliseu, aos cristãos sendo lançados às feras ou às fogueiras nas quais eram queimados vivos. Embora essas fossem formas frequentes de martírio, não eram as únicas. Na verdade, quando estudamos as torturas infligidas aos cristãos ao longo da História, é difícil acreditar e entender como o ser humano é capaz de chegar a tal ponto de frieza e crueldade. A fim de se ter uma pálida ideia do que implicava alguém tornar-se um mártir, estão relacionadas a seguir algumas das formas de suplício aplicadas aos cristãos.

Cruzes, estacas e suspensão. À semelhança de Cristo, a pessoa era pregada ou amarrada a uma cruz ou estaca. Para intensificar o sofrimento, as posições variavam: de cabeça para cima ou para baixo; pendurados pelos braços ou pés, com ou sem pesos ou pedras amarrados; e pelos cabelos, no caso das mulheres. Em algumas ocasiões, o mártir era coberto com mel e então suspenso numa estaca ou poste para ser atormentado por moscas e abelhas ao sol, quando não, posto na terra nessa mesma condição, a fim de ser mordido por formigas.

Rodas.Eram variadas. Em alguns casos, o mártir era amarrado a uma grande roda em formato cilíndrico, que era solta a certa altura sobre terreno pedregoso. Outras vezes, eram amarrados a uma roda estreita que girava sobre uma plataforma cravejada com pontas de ferro, de modo que o mártir era mutilado à medida que a roda girava.

Estiramento e esmagamento.O indivíduo era preso pelos braços a uma estaca e pelos pés a uma talha (uma máquina simples baseada num sistema de roldanas, acionada manualmente). Ao passo que a talha era acionada, o corpo era esticado a ponto de deslocar os ossos. Também utilizando uma talha, ou pedra enorme, alguns iam sendo esmagados aos poucos.

Uso do fogo.Os torturadores eram pródigos no uso do fogo. Em um dos tipos de tortura, o mártir era lançado de cabeça em um caldeirão cheio de chumbo fundido ou óleo fervente. Alguns eram literalmente fritos em panelas ou chapas aquecidas, adaptadas ao seu tamanho. Havia também o chamado touro de bronze, que consistia numa escultura oca, em cujo interior (semelhante a um forno) o condenado era posto para morrer assado, após serem acesas as chamas na parte inferior do animal. Segundo a tradição, Antipas, mencionado em Apocalipse 2:13, foi martirizado assim.

Esfolamento.Sem dúvida, uma das mais cruéis formas de tortura. Nesse caso, o mártir era amarrado e esfolado (tinha sua pele retirada) vivo. A tradição conta que o apóstolo Bartolomeu foi submetido a essa forma de suplício.

Outros tipos de tortura. Faltaria espaço para descrever cada tipo de tortura, método ou os instrumentos fabricados para esse fim contra os cristãos na Antiguidade e no período da Idade Média. É horrendo observar a inteligência e criatividade humanas para o mal, mesmo numa época de profundo atraso intelectual. Outras formas de martírio eram: afogamento (o mártir era preso em uma caixa de chumbo e atirado aos rios), perfurações (prendia-se o indivíduo e perfurava-o com lanças, espadas, estacas pontiagudas, punhais, etc.), amputação (os membros eram amputados um a um, com auxílio de machados, lâminas ou serras), espancamento, apedrejamento, uso de espinhos e farpas sob as unhas, entre outras.

Fato curioso – Os relatos de martírio de cristãos revelam algo intrigante. Boa parte dos que eram torturados e assassinados por sua fé passava seus últimos momentos cantando, louvando a Deus ou orando. Em alguns casos, enquanto morriam, encorajavam os que assistiam a cena a serem fiéis a Deus, fazendo do local de martírio uma espécie de púlpito.

A psicologia dos mártires – Como entender a mente de um mártir? O que faz um ser humano, diante das mais cruéis torturas, manter firmes suas crenças? Qual o segredo pelo qual pessoas frágeis – mulheres, idosos, pobres sem expressão –eram capazes de se colocar diante de reis e imperadores, juízes e autoridades com ousadia invejável? Que força era aquela que, no calor da fogueira, sentindo as chamas a carbonizar seu corpo, era capaz de entoar as mais belas canções de louvor? Qual a psicologia de um mártir? Se pudéssemos entrar em sua mente e examinar as profundezas de seu coração, o que encontraríamos? Qual a razão de tanta coragem e força sobre-humanas. Qual a mola propulsora que impeliu milhares de cristãos, ao longo dos séculos, a trilhar um caminho de lágrimas, sangue e morte?


Faz parte do mecanismo natural de defesa da maioria dos seres vivos recuar diante do sofrimento. Desde muito cedo, aprendemos, na prática, o que isso significa. Qualquer criança que insista em “cutucar” os bolos feitos por sua mãe, mais cedo ou mais tarde, vai se deparar com a realidade de que o fogo, ou o calor, queima. A primeira reação natural diante da sensação de queimadura é retirar imediatamente o dedo, afinal, ninguém quer ser queimado.

Fugir de situações que ofereçam risco à integridade física não é necessariamente um ato de covardia; faz parte do instinto de sobrevivência. Deus nos dotou desse instinto a fim de sobrevivermos neste mundo hostil e perigoso, após o pecado.

Contudo, o que impressiona é que o caso dos mártires contradiz a lógica da biologia. Em lugar de recuar diante do sofrimento, eles iam ao seu encontro. Em lugar de fugir, se submetiam, mesmo diante da possibilidade de evitar o martírio. Como entender?

Ao se analisar a história dos mártires cristãos, as declarações de alguns deles momentos antes de morrer e os relatos de testemunhas oculares, nota-se que sua consciência era bem clara com relação a algumas questões existenciais.

Senso de identidade(“Quem eu sou?”). Os que morriam por sua fé tinham convicção de quem eles eram. Tinham certeza de sua filiação – eram filhos de Deus (Jo 1:12) –, bem como de sua cidadania – sua verdadeira pátria era o Céu (Fp 3:20).

Senso de origem(“De onde vim?”). Os mártires criam que eram fruto da criação de Deus. Estavam cientes de estar devolvendo-Lhe, em louvor, a vida que dEle receberam. Não eram os algozes cruéis os donos de sua existência, mas o Deus Criador.

Senso de propósito ou missão (“Por que estou neste mundo?”). Os cristãos sabem –ou deveriam saber – que não estão neste mundo simplesmente por estar; há um propósito, uma missão: ser testemunhas de Deus e conduzir outros a Ele. Esse senso de missão gerava nos mártires um forte sentimento de dever, a ponto de, se preciso fosse, depor a vida no seu cumprimento.

Senso de destino(“Para onde vou?”). Ao contrário dos gregos, que acreditavam que a História vai e volta num movimento cíclico, como uma eterna roda gigante, judeus e cristãos sempre acreditaram que o tempo é linear. Isso significa que viemos de algum ponto no tempo e caminhamos rumo a outro ponto. A História, na visão judaico-cristã, também é climática, o que quer dizer que chegará a um clímax, a um ponto culminante. De acordo com a Bíblia, o ponto culminante da História é o momento em que Cristo voltará à Terra para colocar fim ao reinado do mal e estabelecer Seu governo eterno. Nesse paraíso tomarão parte os que permanecerem fiéis. Saber disso dava aos mártires o conforto necessário para abrir mão do que fosse preciso no presente, visando ao futuro.

Conhecer os assuntos nos quais se concentravam, ou seja, o foco de seus pensamentos, também nos ajuda e entender o que se passava na mente dos mártires.

Foco na eternidade.Os mártires cristãos tinham consciência de que sua vida neste mundo, por maior que fosse a duração ou o sofrimento, jamais poderia ser comparada à eternidade. Ao morrer por sua fé, sabiam que estavam trocando o finito pelo ilimitado, o escasso pelo incalculável.

Foco na recompensa.Embora os cristãos sinceros não O sirvam por interesse, Deus promete recompensas aos fiéis. A maior delas, sem dúvida, é a vida eterna num mundo perfeito. Manter o foco nessa recompensa ajudava os mártires a transferir seu olhar das chamas que os consumiam e das feras que os dilaceravam para a glória do mundo por vir e suas alegrias.

Foco em Deus.A comunhão com Deus era o segredo fundamental por trás da resistência e perseverança dos mártires do passado. Os que morriam por amor a Cristo O conheciam, pois mantinham com Ele um relacionamento pessoal e diário. Orar, memorizar textos bíblicos e cantar hinos de louvor a Deus era parte da rotina dos antigos cristãos. Essa intimidade com o Eterno fazia com que não hesitassem em entregar a vida. Viver ou morrer para a glória de Deus era sua aspiração.

Fator ressurreição –Além dos elementos subjetivos mencionados acima, é importante destacar que a coragem dos mártires também era baseada em um fato histórico: a ressurreição de Jesus. Por que pessoas sofreriam, voluntariamente, execuções horríveis, quando podiam evitá-las, simplesmente renunciando sua fé? A única resposta plausível –especialmente no caso dos apóstolos e dos cristãos do primeiro século – é que essas pessoas tinham absoluta convicção de que Cristo realmente havia morrido e ressuscitado dentre os mortos, comprovando assim ser o Filho de Deus.

Essa evidência se torna ainda mais contundente quando consideramos o fato de que aqueles discípulos não obteriam nenhuma vantagem em sustentar seu testemunho, caso fosse mentira. Muito pelo contrário, o resultado de manterem sua confissão seria– como foi – perseguição e morte. A certeza da ressurreição de Cristo foi, senão a principal, uma das maiores motivações do martírio cristão.

A ação do sobrenatural–Sem a atuação do Espírito Santo, convicção alguma seria capaz de suportar tamanho sofrimento até o fim diante da possibilidade de renúncia. Em última análise, é Deus, através de Seu Espírito, quem fortalece o mártir. De acordo com Jesus, é Ele quem põe as palavras certas nos lábios dos que são levados a depor diante das autoridades (Mt 10:19,20). O mesmo Deus os reveste da força necessária para enfrentar o julgamento, a tortura e, por fim, a morte (2Tm 4:17). Assim, a razão maior da força e coragem dos mártires vinha do Céu.

Por que Deus permitiu?–Talvez você já tenha feito essa pergunta, ao ouvir a história dos mártires do cristianismo. Mas, para dar uma resposta satisfatória a essa questão, precisaríamos abordar o tema da origem do mal, do grande conflito e do porquê do sofrimento, e esse não é o propósito deste artigo. O que podemos dizer aqui é que a morte daqueles heróis da fé faz parte de um enredo muito mais amplo do que nossa mente é capaz de entender. Aspectos como a soberania de Deus e o caráter e fidelidade dos próprios mártires eram pontos que estavam em jogo. Além disso, é incontestável o fato de que o testemunho de fé dessas pessoas contribuiu decisivamente para a salvação e encorajamento de milhares de outros cristãos através dos séculos, bem como daqueles que tiveram que enfrentar situações semelhantes na defesa da verdade.

Qual a diferença? –A definição de mártir, como vimos, não se aplica unicamente aos cristãos que sacrificavam a vida defendendo sua fé, mas também àqueles que morrem por ideais patrióticos, políticos ou sociais. Há quem classifique como mártires também aqueles que morrem na chamada “guerra santa”, extremistas religiosos que, geralmente, recorrem ao suicídio como tática de combate.

Afinal de contas, qual a diferença entre os mártires cristãos e Tiradentes (chamado mártir da Inconfidência Mineira), por exemplo, ou os homens-bomba?

A diferença básica, em minha opinião, está na cosmovisão. “Cosmovisão” é um termo utilizado no campo da Filosofia para se referir ao “quadro de ideias e crenças pelas quais um indivíduo interpreta o mundo e interage com ele”. De maneira simples, cosmovisão são os óculos através dos quais cada um enxerga a vida, ou o mundo ao seu redor.

A cosmovisão de um mártir cristão era radicalmente oposta à visão de mundo dos outros“mártires”. Conforme já falamos, os cristãos tinham em mente, bem claras, as principais questões que dizem respeito à existência (“Quem sou?”, “De onde vim”, “Por que estou neste mundo?” e “Para onde vou?”). A resposta a essas perguntas conferia a eles uma visão completamente abrangente da vida e da realidade. Além disso, os três focos mencionados (foco na eternidade, foco na recompensa e foco em Deus – principalmente o último) faziam com que os mártires cristãos tivessem uma motivação muito mais ampla do que os demais.

A decisão daquelas pessoas, de render a vida em lugar de renunciar a fé, longe de ser um ato movido por paixão ou fanatismo (como no caso de terroristas suicidas), era algo racional. Havia lucidez na atitude delas, sua consciência era clara e sua razão, sadia. Em lugar de manter uma religiosidade doentia e extremista, tinham plena acuidade mental para pesar as consequências de sua decisão.

Enquanto os mártires do fanatismo religioso defendem a luta, a guerra, os mártires cristãos eram partidários da paz e da não reação. Ao passo que aqueles promovem o assassínio em massa, estes defendiam o valor da vida humana (os cristãos não procuravam a morte, apenas não fugiam dela).

Outra diferença fundamental diz respeito ao incentivo. Os extremistas dão uma ênfase exagerada à recompensa (um paraíso com virgens à sua disposição, etc.), enquanto o estímulo principal no coração dos mártires cristãos era o amor – amor a Deus e a Sua Palavra.

No caso daqueles que se tornam mártires em função de sua luta por bons ideais –políticos, patrióticos ou sociais –, embora seu propósito e intenção sejam nobres, sua cosmovisão é estreita, limitada, já que lutam por aspectos bastante particulares da vida humana. Embora seus esforços sejam louváveis e devamos muito a eles, seu resultado é apenas para esta vida. Seus olhos não alcançam o horizonte da eternidade. Os cristãos, porém, sabem que sua luta ultrapassa as fronteiras do tempo e do espaço e tem implicações eternas e cósmicas. Homens, anjos, demônios e todo o Universo eram testemunhas de seu martírio; e as decisões tomadas ali poderiam ser decisivas para toda a eternidade.

O legado dos mártires –De tudo o que podiam deixar como herança, o maior legado dos mártires foi seu exemplo. Exemplo de fé, coragem, amor e fidelidade a Deus. Foram espetáculo ao mundo, mantiveram sua confissão, derramaram o sangue pela Causa e foram heróis. Heróis que, sem espada, conquistaram reinos; conquistaram o medo, conquistaram a si mesmos, conquistaram o mundo e, acima de tudo, a eternidade. Seus nomes, na maioria, permanecem no anonimato entre os homens, mas no Céu, com certeza, estão na galeria dos grandes vencedores de todos os tempos.

Nossa parte –Por fim, a pergunta mais importante é: E nós? Teríamos a mesma coragem que eles? Se nos confrontássemos com o calibre de um revólver e o dilema de permanecer fiéis a Cristo e morrer ou negá-Lo e viver, qual seria nossa decisão? Se você titubeou em sua resposta, é hora de rever sua vida cristã. Qual tem sido sua real motivação para servir a Cristo? Qual o grau de intimidade que julga ter com Ele? Onde está seu foco? Estão claras em sua mente as quatro questões existenciais (“Quem sou?”, “De onde vim”, “Por que estou neste mundo?”e “Para onde vou?”)? É seu sincero desejo honrar a Deus, quer pela vida ou pela morte? Pense nisso, e que Deus o ajude em sua decisão!

(Fonte: Blog Criacionismo, Autor: Eduardo Rueda - editor associado de livros na Casa Publicadora Brasileira)

Bibliografia:

A. J. O’Reilly, Os Mártires do Coliseu (Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005).
Bíblia Edição de Promessas (São Paulo: Editora King’s Cross).
David Noel Freedman, The Anchor Yale Bible Dictionary (New York: Doubleday, 1996), “martyr, martyrdom”.
Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira).
John Fox, O Livro dos Mártires (São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2003).
Lourival P. Baçan, Torturas e Tormentos dos Mártires Cristãos (e-book).
Ralph O. Muncaster, Examine as Evidências(Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2011).
Site. Acesso em: 4 set. 2012.
Thieleman J. van Bracht, O Espelho dos Mártires(Rio Verde: Publicadora Menonita, 2009).

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Você é criacionista?

A minha primeira resposta a essa pergunta é: “Mas é claro que sou criacionista! Eu creio em Deus e creio que Ele criou o Universo.” Se Deus criou o Universo, quer dizer que Ele criou tudo, certo? E imediatamente pensamos nas coisas“físicas” que Ele criou: a terra, as plantas, animais, o ser humano, etc. A maioria de nós cristãos se denomina criacionista (fisicamente falando), mas e espiritualmente? Será que também somos criacionistas?

Algum tempo atrás, ouvi um sermão de um pastor sobre o “evolucionismo espiritual” e confesso que tive que parar e repensar minhas crenças e princípios, e percebi que de algumas maneiras estava sendo evolucionista. Mas como seria esse“evolucionismo espiritual”?

Antes de pensar no evolucionismo espiritual, vamos estabelecer um fato: Se Deus criou as coisas físicas que vemos, Ele também criou as coisas espirituais, certo? Então, assim como existe uma contrafação para o criacionismo físico (conhecida como teoria da evolução), também existe uma contrafação para o criacionismo espiritual (daqui para frente denominado “evolucionismo espiritual”).

Deus não criou o ser humano e o deixou para viver como bem entendesse. Ele sempre teve um plano espiritual para todas as áreas da nossa vida: nosso bem estar, nossa família, nossas atividades, estilo de vida, etc., mas, muitas vezes, não buscamos a Deus ou a Sua palavra para obter orientação nessas áreas; simplesmente seguimos o que o mundo dita; o que é “normal”. Moramos onde “o mundo” diz ser melhor morar; nos alimentamos do que “o mundo” diz ser correto; nos vestimos como “o mundo” diz ser mais “normal”; trabalhamos no que “o mundo”diz ser mais lucrativo; lidamos com a família como “o mundo” diz ser melhor, e assim por diante...

Você está entendendo o que estou querendo dizer? Queremos ser criacionistas, mas apenas até certo ponto. Dali para frente, não. Dizemos: “Isso não é ponto de salvação”, ou então: “Isso não tem nada ver com a minha espiritualidade”, ou ainda: “Os tempos mudaram”. Não nos lembramos de que princípios divinos nunca mudam.

Não sou expert em evolucionismo, mas na teoria evolucionista existe algo que é chamado de “adaptação das espécies”, que leva à “sobrevivência do mais apto”. Isto é, os evolucionistas creem que, conforme as coisas foram mudando no mundo durante milhões de anos, as espécies foram se adaptando (passando por mutações), e só as espécies que se adaptaram puderam sobreviver no novo ambiente.

No campo espiritual, algo bem semelhante também ocorreu. “O mundo” (a sociedade) foi mudando desde seu início. As ideias “dos mais fortes” foram as que“sobreviveram”, isto é, se tornaram mais populares, e as espécies (pessoas) simplesmente precisaram se adaptar para sobreviver (para não ficar para trás ou para não passar vergonha). E nosso mundo hoje em dia reflete exatamente isto: uma sociedade adaptada. Estamos tão longe da vontade de Deus que muitas vezes nem reconhecemos mais a vontade dEle.

Amigo, estamos entrando em um período crítico para a história deste mundo. Estamos chegando num ponto em que é tudo ou nada. Precisamos olhar para nós mesmos e fazer uma análise. Estou vivendo de acordo com o plano de Deus, em todas as áreas da minha vida, ou já estou tão “adaptado” ao que o mundo dita que seria muito difícil voltar a buscar a vontade de Deus? (Clique aqui para continuar a leitura deste artigo)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A calúnia celestial de Satanás


Como provar que Ezequiel 28 se refere também a Satanás e ao começo do conflito no Céu?


Como um teólogo aspirante, escrevi meu primeiro trabalho de pesquisa a respeito dos textos de Isaías 14 e Ezequiel 28 – passagens que os adventistas tradicionalmente interpretam como sendo referentes a Satanás e à origem do mal no Céu. Seguindo a pista de comentários da alta crítica, cheguei à desconcertante conclusão de que essas passagens se referem nem a um nem a outro. Consequentemente, senti que os adventistas não deveriam mais citar essas supostas evidências bíblicas para sustentar sua compreensão acerca de como o Grande Conflito começou.

Entretanto, estudos mais aprofundados revelaram que, até o surgimento da crítica histórica à época do Iluminismo, os cristãos em geral interpretavam Isaías 14 e Ezequiel 28 da mesma maneira que os adventistas interpretam hoje. E, recentemente, encontrei evidências exegéticas convincentes de que Isaías e Ezequiel estavam, de fato, se referindo a Satanás nessas passagens.

Enquanto era estudante em nosso seminário, Jose Bertoluci escreveu uma dissertação que compromete seriamente a visão crítica de que os dois profetas descrevem apenas inimigos terrenos históricos de Israel. Intitulado “O Filho da Alva e o Querubim Cobridor no contexto do conflito entre o bem e o mal”[1], o artigo de Bertoluci mostra que cada passagem se transfere do domínio local e histórico dos reis terrestres para o âmbito sobrenatural no qual Lúcifer interpretou seu sedicioso papel. Descobri mais evidências que suportam esse deslocamento conceitual em Ezequiel 28 – do “príncipe” terreno (nagid, o rei de Tiro, versos 1-10) para o “rei” cósmico (melek, o soberano sobrenatural de Tiro, o próprio Satanás, versos 11-19). Descobri também que esse julgamento sobre o querubim caído ocorre no clímax do livro inteiro.[2] Desse modo, a evidência bíblica suporta fortemente a exegese tradicional: o mal teve sua origem em Lúcifer, o querubim cobridor.

Até alguns meses atrás, entretanto, um conceito adventista muito familiar a respeito do advento do Grande Conflito parecia não ter mais do que um suporte bíblico meramente inferencial. Refiro-me às alegações de que, antes de sua queda, Satanás se pôs entre os anjos a difamar o caráter e o governo de Deus. Nos livros Patriarcas e Profetas e O Grande Conflito, em torno de 16 páginas tratam desse assunto, com base em informações a respeito de Satanás tais como o fato de ele ter sido chamado “homicida desde o princípio, [...] um mentiroso” (João 8:44, RSV) e “o acusador de nossos irmãos” (Apocalipse 12:10, RSV). Mas existe alguma base bíblica mais explícita para a acusação de “calúnia celestial”?

Acredito que sim. Por um feliz acaso, eu estava examinando uma afirmação recente de que a maior parte da descrição de Satanás em Ezequiel 28 seria apenas simbólica porque, como foi argumentado, ele é descrito como sendo engajado em uma “abundância de [...] comércio” (verso 16, NKJV) e, obviamente, Lúcifer não é literalmente um mercador celestial. Na etimologia da palavra hebraica para “comércio”, fiz uma surpreendente e empolgante descoberta. O verbo rakal, do qual esse substantivo deriva, literalmente significa “andar por aí, de um para outro (para comércio ou conversa fútil)”.[3] O substantivo derivado rakil – encontrado seis vezes no Antigo Testamento, uma delas em Ezequiel 22:9 – significa “caluniador” ou “mexeriqueiro”. O outro substantivo derivado, rkullah – que é o termo usado para “comércio” em Ezequiel 28:16 – aparece somente nesse livro, e todas as suas quatro ocorrências têm que ver com Tiro (26:12; 28:5; 16, 18).

A maior parte das versões modernas traduzem rkullah como “tráfico”, “comércio” ou “mercadoria” – o que faz sentido, se aplicado somente à Tiro histórica, uma cidade mercante, como contexto único da palavra. Entretanto, em referência às representações do querubim cobridor em 28:16 e 18, a noção de comércio não parece se aplicar tão bem. O notável crítico exegeta Walther Eichrod comenta: “A descrição da transgressão é um pouco inesperada, já que o comércio aqui é subitamente representado como sendo a origem da iniquidade.”[4]

Uma resposta que acomoda ambas as interpretações, “comércio” e “calúnia”, pode ser encontrada, creio eu, em um recurso literário conhecido como “paranomasia” – um jogo com o significado da palavra. Já que o substantivo rkullah é derivado do verbo que significa “andar por aí, de um para outro, para fins de comércio ou de conversa fútil/difamação” – parece provável que Ezequiel tenha escolhido esse raro termo hebraico (ao invés do termo mais comum para comércio, sahar) justamente por causa de seu possível duplo significado. A Tiro histórica claramente “andou por aí, de um para outro” para fins de comércio com outras nações. De maneira semelhante, o derradeiro governante de Tiro, Satanás (versos 11-19), no celeste “monte de Deus”, também andou por aí, de um para outro – mas não para negociar, e sim para espalhar calúnia e difamação entre os anjos. Ambos os governantes, o terrestre e o espiritual, praticaram “tráfico”: o primeiro, de mercadorias; o segundo, de calúnias contra Deus.[5]

O contexto imediato de Ezequiel 28:16 retrata a queda do Querubim Cobridor da perfeição (verso 15) para o orgulho (verso 17). Nesse cenário, os versos 16 e 18 traçam seus subsequentes passos para a perdição. O verso 16 pode ser mais bem traduzido da seguinte maneira: “Na multiplicação da tua difamação [rkullah], se encheu o teu [de Satanás] interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus...” Com hábeis pinceladas, Ezequiel pinta o retrato de Lúcifer difamando a Deus, um primeiro passo em direção à definitiva rebelião aberta e violenta descrita tão bem por João como “guerra no Céu” (Apocalipse 12:7, NIV). Ezequiel 28:18 revela que, após sua expulsão do Céu, o querubim caído continua a sua “iniquidade de difamação [rkullah]” contra Deus. O versículo também registra a sentença divina contra Satanás: destruição pelo fogo por causa da “multidão de suas iniquidades”.

A sediciosa difamação celestial de Satanás contra Deus nos primeiros momentos do Grande Conflito não é uma adição adventista extrabíblica à história; é, na verdade, uma admirável verdade bíblica!

(Richard M. Davidson é professor de Antigo Testamento na Universidade Andrews, nos EUA)


Referências:

1.
Jose M. Bertoluci, “The Son of the Morning and the Guardian Cherub in the Context of the Controversy Between Good and Evil”, dissertação de Th.D., Andrews University Seventh-Day Adventist Theological Seminary, 1985 (disponível a partir de University Microfilms, University of Michigan, P.O. Box 1346, Ann Arbor, MI 48106-1346).

2. Richard M. Davidson, “Revelation/Inspiration in the Old Testament”, Issues in Revelation and Inspiration, Adventist Theological Society Occasional Papers, v. 1, Frank Holbrook e Leo Van Dolson, eds. (Berrien Springs, Mich.: Adventist Theological Society Publications, 1992), p. 118, 119.

3. Francis Brown, S. R. Driver e Charles A. Briggs, eds., The New Brown, Driver and Briggs Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (Grand Rapids, Mich.; Baker Book House, 1981), p. 940.

4. Walter Eichrodt, Ezekiel: A Commentary, Old Testament Library (Philadelphia: Westminster Press, 1970), p. 394.

5. Apocalipse 18 parece capturar esse nuance dúbio utilizado por Ezequiel. Em uma passagem claramente alusória a Ezequiel 28, o anjo fala sobre a “mercadoria” de várias coisas materiais nos versos 12 e 13, mas a listagem termina transferindo-se para o âmbito espiritual: “mercadorias de [...] almas humanas” (KJV).

(Fonte: Blog Criacionismo)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Perguntas Acerca do Espírito Santo

O “Espírito” não pode ser uma pessoa, pois a Bíblia fala em “derramar o ‘Espírito’”, “encher-se do ‘Espírito’”, etc. Como se poderia derramar uma pessoa ou encher-se dela?

Resposta:

A) O fato de o “Espírito” ser derramado não serve como prova de que não seja uma personalidade, ou “pessoa”. O termo “pessoa”, empregado com referência à Divindade, denota a pobreza do vocabulário humano para referir-se às coisas do Alto, tendo, pois, mero valor comparativo.

B) Podemos indagar também: É Cristo uma pessoa, de personalidade própria? Admitirão as “testemunhas” que sim. Então, novamente perguntamos: como podemos “revestir-nos” de Cristo, segundo Paulo recomenda? Ora, seria possível revestir-nos de uma pessoa? Cristo não Se parece com nenhuma peça de tecido. . . (Gál. 3:27).

C) A própria Tradução Novo Mundo reproduz as palavras de Paulo ao dizer, “já estou sendo derramado” (2 Tim. 4:6). Ora, indiscutivelmente Paulo era uma pessoa. . .

D) Satanás, que é uma “pessoa”, uma personalidade, pode entrar noutra pessoa, como no caso de Judas: João 13:27.

E) CONCLUSÃO: Assim como podemos encher-nos do Espírito, podemos revestir-nos de Cristo, e também o Espírito Santo pode ser “derramado”, como a T.N.M. diz ter sido o apóstolo Paulo.

Antes de “Espírito” não há artigo no original grego. Isso prova que não se trata de uma pessoa, mas de uma mera força ativa de Deus (cf. I Cor. 5:3-5).

Resposta:

A) A mania de exigir sempre a colocação de artigo para indicar tratar-se de uma pessoa, e não uma coisa, é absurda. Em Col. 2:2 Cristo é referido, e não há artigo antes da referência a Ele.

Obs.: O texto em grego reza: “Eis epignosin tou mysteriou tou theou, Christou”--pleno conhecimento de Deus, Cristo”.

B) A analogia com o “espírito” de Paulo em I Cor. 5:3-5 não tem validade, pois o apóstolo fala figuradamente.

Obs.: O seu “espírito” ou seja, seus pensamentos, sentimentos ou interesse pelo caso, que deviam ser levados em conta, uma vez que ele já tomara uma decisão-“já julguei como se estivesse presente” ([v. 3], seria lembrança dele, e não uma “força ativa” do apóstolo, presente à reunião).

C) Em Atos 15:28, por outro lado, ao Espírito “pareceu bem” , na tomada da decisão durante o Concílio de Jerusalém. O v. 8 diz que Deus lhes dera o Espírito Santo, e com o Espírito presente à reunião é que chegaram a um consenso.
Obs.: No caso do “espírito” presente de Paulo (durante sua ausência física), os crentes apenas uniram a decisão deles à já tomada pelo apóstolo como se ele próprio estivesse na reunião que julgaria o caso, sendo que de antemão já conheciam sua opinião.

(Do Estudo "Trindade - Entendendo a Divindade", do site Jesus Voltará).
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