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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A calúnia celestial de Satanás


Como provar que Ezequiel 28 se refere também a Satanás e ao começo do conflito no Céu?


Como um teólogo aspirante, escrevi meu primeiro trabalho de pesquisa a respeito dos textos de Isaías 14 e Ezequiel 28 – passagens que os adventistas tradicionalmente interpretam como sendo referentes a Satanás e à origem do mal no Céu. Seguindo a pista de comentários da alta crítica, cheguei à desconcertante conclusão de que essas passagens se referem nem a um nem a outro. Consequentemente, senti que os adventistas não deveriam mais citar essas supostas evidências bíblicas para sustentar sua compreensão acerca de como o Grande Conflito começou.

Entretanto, estudos mais aprofundados revelaram que, até o surgimento da crítica histórica à época do Iluminismo, os cristãos em geral interpretavam Isaías 14 e Ezequiel 28 da mesma maneira que os adventistas interpretam hoje. E, recentemente, encontrei evidências exegéticas convincentes de que Isaías e Ezequiel estavam, de fato, se referindo a Satanás nessas passagens.

Enquanto era estudante em nosso seminário, Jose Bertoluci escreveu uma dissertação que compromete seriamente a visão crítica de que os dois profetas descrevem apenas inimigos terrenos históricos de Israel. Intitulado “O Filho da Alva e o Querubim Cobridor no contexto do conflito entre o bem e o mal”[1], o artigo de Bertoluci mostra que cada passagem se transfere do domínio local e histórico dos reis terrestres para o âmbito sobrenatural no qual Lúcifer interpretou seu sedicioso papel. Descobri mais evidências que suportam esse deslocamento conceitual em Ezequiel 28 – do “príncipe” terreno (nagid, o rei de Tiro, versos 1-10) para o “rei” cósmico (melek, o soberano sobrenatural de Tiro, o próprio Satanás, versos 11-19). Descobri também que esse julgamento sobre o querubim caído ocorre no clímax do livro inteiro.[2] Desse modo, a evidência bíblica suporta fortemente a exegese tradicional: o mal teve sua origem em Lúcifer, o querubim cobridor.

Até alguns meses atrás, entretanto, um conceito adventista muito familiar a respeito do advento do Grande Conflito parecia não ter mais do que um suporte bíblico meramente inferencial. Refiro-me às alegações de que, antes de sua queda, Satanás se pôs entre os anjos a difamar o caráter e o governo de Deus. Nos livros Patriarcas e Profetas e O Grande Conflito, em torno de 16 páginas tratam desse assunto, com base em informações a respeito de Satanás tais como o fato de ele ter sido chamado “homicida desde o princípio, [...] um mentiroso” (João 8:44, RSV) e “o acusador de nossos irmãos” (Apocalipse 12:10, RSV). Mas existe alguma base bíblica mais explícita para a acusação de “calúnia celestial”?

Acredito que sim. Por um feliz acaso, eu estava examinando uma afirmação recente de que a maior parte da descrição de Satanás em Ezequiel 28 seria apenas simbólica porque, como foi argumentado, ele é descrito como sendo engajado em uma “abundância de [...] comércio” (verso 16, NKJV) e, obviamente, Lúcifer não é literalmente um mercador celestial. Na etimologia da palavra hebraica para “comércio”, fiz uma surpreendente e empolgante descoberta. O verbo rakal, do qual esse substantivo deriva, literalmente significa “andar por aí, de um para outro (para comércio ou conversa fútil)”.[3] O substantivo derivado rakil – encontrado seis vezes no Antigo Testamento, uma delas em Ezequiel 22:9 – significa “caluniador” ou “mexeriqueiro”. O outro substantivo derivado, rkullah – que é o termo usado para “comércio” em Ezequiel 28:16 – aparece somente nesse livro, e todas as suas quatro ocorrências têm que ver com Tiro (26:12; 28:5; 16, 18).

A maior parte das versões modernas traduzem rkullah como “tráfico”, “comércio” ou “mercadoria” – o que faz sentido, se aplicado somente à Tiro histórica, uma cidade mercante, como contexto único da palavra. Entretanto, em referência às representações do querubim cobridor em 28:16 e 18, a noção de comércio não parece se aplicar tão bem. O notável crítico exegeta Walther Eichrod comenta: “A descrição da transgressão é um pouco inesperada, já que o comércio aqui é subitamente representado como sendo a origem da iniquidade.”[4]

Uma resposta que acomoda ambas as interpretações, “comércio” e “calúnia”, pode ser encontrada, creio eu, em um recurso literário conhecido como “paranomasia” – um jogo com o significado da palavra. Já que o substantivo rkullah é derivado do verbo que significa “andar por aí, de um para outro, para fins de comércio ou de conversa fútil/difamação” – parece provável que Ezequiel tenha escolhido esse raro termo hebraico (ao invés do termo mais comum para comércio, sahar) justamente por causa de seu possível duplo significado. A Tiro histórica claramente “andou por aí, de um para outro” para fins de comércio com outras nações. De maneira semelhante, o derradeiro governante de Tiro, Satanás (versos 11-19), no celeste “monte de Deus”, também andou por aí, de um para outro – mas não para negociar, e sim para espalhar calúnia e difamação entre os anjos. Ambos os governantes, o terrestre e o espiritual, praticaram “tráfico”: o primeiro, de mercadorias; o segundo, de calúnias contra Deus.[5]

O contexto imediato de Ezequiel 28:16 retrata a queda do Querubim Cobridor da perfeição (verso 15) para o orgulho (verso 17). Nesse cenário, os versos 16 e 18 traçam seus subsequentes passos para a perdição. O verso 16 pode ser mais bem traduzido da seguinte maneira: “Na multiplicação da tua difamação [rkullah], se encheu o teu [de Satanás] interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus...” Com hábeis pinceladas, Ezequiel pinta o retrato de Lúcifer difamando a Deus, um primeiro passo em direção à definitiva rebelião aberta e violenta descrita tão bem por João como “guerra no Céu” (Apocalipse 12:7, NIV). Ezequiel 28:18 revela que, após sua expulsão do Céu, o querubim caído continua a sua “iniquidade de difamação [rkullah]” contra Deus. O versículo também registra a sentença divina contra Satanás: destruição pelo fogo por causa da “multidão de suas iniquidades”.

A sediciosa difamação celestial de Satanás contra Deus nos primeiros momentos do Grande Conflito não é uma adição adventista extrabíblica à história; é, na verdade, uma admirável verdade bíblica!

(Richard M. Davidson é professor de Antigo Testamento na Universidade Andrews, nos EUA)


Referências:

1.
Jose M. Bertoluci, “The Son of the Morning and the Guardian Cherub in the Context of the Controversy Between Good and Evil”, dissertação de Th.D., Andrews University Seventh-Day Adventist Theological Seminary, 1985 (disponível a partir de University Microfilms, University of Michigan, P.O. Box 1346, Ann Arbor, MI 48106-1346).

2. Richard M. Davidson, “Revelation/Inspiration in the Old Testament”, Issues in Revelation and Inspiration, Adventist Theological Society Occasional Papers, v. 1, Frank Holbrook e Leo Van Dolson, eds. (Berrien Springs, Mich.: Adventist Theological Society Publications, 1992), p. 118, 119.

3. Francis Brown, S. R. Driver e Charles A. Briggs, eds., The New Brown, Driver and Briggs Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (Grand Rapids, Mich.; Baker Book House, 1981), p. 940.

4. Walter Eichrodt, Ezekiel: A Commentary, Old Testament Library (Philadelphia: Westminster Press, 1970), p. 394.

5. Apocalipse 18 parece capturar esse nuance dúbio utilizado por Ezequiel. Em uma passagem claramente alusória a Ezequiel 28, o anjo fala sobre a “mercadoria” de várias coisas materiais nos versos 12 e 13, mas a listagem termina transferindo-se para o âmbito espiritual: “mercadorias de [...] almas humanas” (KJV).

(Fonte: Blog Criacionismo)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Isaac Newton: Cientista e Teólogo


Era uma pessoa fora do comum — distraído e generoso, sensível à crítica e modesto. Enfrentou uma série de crises psicológicas. Tinha dificuldade em manter boas relações sociais. Contudo, ele foi um dos raros gigantes da história — um físico brilhante, astrônomo e matemático extraordinário e um filósofo natural.
Quando Isaac Newton, aquele raro gênio inglês e cavalheiro, morreu em 1727 com a idade de 85, deixou uma marca indelével em todo trabalho a que se dedicou. Conhecemos suas leis do movimento e a teoria da gravitação. Nós o conhecemos por suas contribuições à compreensão do universo. Mas raramente conhecemos suas contribuições à teologia cristã. Depois de um estudo intenso de seus escritos, concluí que Newton era não só um grande cientista, mas também um grande teólogo — um verdadeiro adventista e criacionista.1
Minha jornada para a compreensão de Newton como teólogo começou há 45 anos, quando me tornei adventista do sétimo dia depois de assistir a uma série evangelística sobre as fascinantes profecias de Daniel e Apocalipse. Estava então estudando na Escola Politécnica da Universidade de S. Paulo, visando a obter um diploma de engenharia.
O ambiente da universidade não era de molde a nutrir minha fé. Eu era bombardeado de todas as direções. Materialismo, preocupações humanísticas e uma filosofia científica restrita convergiam para pôr em dúvida minha fé recente. Eu precisava de algo para defender o que cria ser verdadeiro, e queria que minha defesa fosse sã e lógica.
Em minha procura de literatura apropriada, descobri uma versão portuguesa de 1950 de Newton’s Observations Upon the Prophecies of Daniel and the Apocalypse — não na biblioteca da escola ou numa livraria, mas em uma banca de livros velhos em uma esquina de S. Paulo. Fiquei encantado ao descobrir que o mesmo Isaac Newton a quem nós, como estudantes de engenharia, conheceramos em ótica, mecânica, cálculo e gravitação, tinha dedicado bastante tempo e esforço à cronologia bíblica e à interpretação de profecia! Com efeito, a Enciclopédia Britânica dá uma lista de livros de Newton, The Chronology of Ancient Kings Amended e Observations Upon the Prophecies of Daniel and the Apocalypse of St. John entre suas cinco obras mais importantes, as outras sendo Philosophiae Naturalis, Principia Mathematica, Opticks e Arithmetica Universalis.
Minha descoberta e estudo de Newton como um erudito cristão levou-me a compreendê-lo como um criacionista, um adventista e um intérprete das profecias.

Newton, o criacionista

Robert Boyle, pioneiro em estudos das propriedades dos gases e forte promotor do cristianismo, que advogava o estudo científico da natureza como um dever religioso, morreu em 1691. Seu testamento provia para uma série de palestras anuais para a defesa do cristianismo contra a incredulidade. Richard Bentley, clérigo e destacado erudito clássico, apresentou a primeira série de palestras em 1692.
Na preparação para suas palestras, Bentley buscou a ajuda de Newton, que já era famoso por seus Principia (1687). Bentley esperava demonstrar que, segundo as leis físicas que governam o universo natural, teria sido impossível os corpos celestes surgirem sem a intervenção de um agente divino.
Desde então, Bentley e Newton trocaram uma correspondência “quase teológica”. Newton declarou: “Quando escrevi meu tratado sobre nosso sistema, tinha meus olhos voltados a princípios que podiam funcionar considerando a crença da humanidade em uma Divindade, e nada me dá maior prazer do que vê-lo sendo útil para este fim”.2
Newton escreveu de novo: “Os movimentos que os planetas têm hoje não podiam ter originado em uma causa natural isolada, mas foram impostos por um agente inteligente”.3
Outros escritos confirmam a forte crença de Newton num Criador, a quem ele se referia freqüentemente como o “Pantokrator”, termo grego, o Todo-Poderoso, “com autoridade sobre tudo que existe, sobre a forma do mundo natural e sobre o curso da história humana”.
Newton expressa suas convicções com clareza: “Precisamos crer que há um só Deus ou monarca supremo a Quem podemos temer e guardar Suas leis e dar-Lhe honra e glória. Devemos crer que Ele é o Pai de quem vêm todas as coisas, e que ama Seu povo como seu Pai. Devemos crer que Ele é o ‘Pantokrator’, Senhor de todas as coisas, com poder irresistível e ilimitado domínio, do qual não podemos esperar escapar, se nos rebelarmos e seguirmos a outros deuses, ou se transgredirmos as leis de Sua soberania, e de Quem podemos esperar grandes recompensas se fizermos Sua vontade. Devemos crer que Ele é o Deus dos judeus, que criou os céus e a terra e tudo que neles há, como expresso nos Dez Mandamentos, de modo que podemos agradecer-Lhe pelo nosso ser e por todas as bênçãos desta vida, e guardar-nos de usar Seu nome em vão ou adorar imagens de outros deuses”.4

Newton, o adventista

Newton também se preocupava com a restauração da Igreja Cristã à sua pureza apostólica. Seu estudo das profecias o levou a concluir que afinal a igreja, a despeito de seus defeitos presentes, triunfaria. William Whiston, que sucedeu a Newton como professor de matemática em Cambridge e escreveu The Accomplishment of Scripture Prophecies, declarou depois da morte de Newton que “ele e Samuel Clarke tinham desistido de lutar pela restauração da Igreja às normas dos tempos apostólicos primitivos porque a interpretação que Newton dava às profecias os tinha levado a esperar uma longa era de corrupção antes de poder ser efetiva”.5
Newton cria num remanescente fiel que testemunharia até o fim dos tempos. Um de seus biógrafos escreve: “Por igreja verdadeira, à qual as profecias apontavam, Newton não pensava incluir todos os cristãos nominais, mas um remanescente, um pequeno povo disperso, escolhido por Deus, povo que não sendo movido por qualquer inte-resse, instrução ou o poder de autoridades humanas, é capaz de se dedicar sincera e diligentemente à busca da verdade”. “Newton estava longe de identificar o que quer que existisse a seu redor como o verdadeiro cristianismo apostólico. Sua cronologia interna tinha posto o dia da trombeta final dois séculos mais tarde.”6
Em Daniel 2 Newton viu o desenvolvimento da história da humanidade até o fim do tempo, quando Cristo estabeleceria Seu reino. Escreveu: “E uma pedra cortada sem mãos, que caiu sobre os pés da imagem, e reduziu a pedaços os quatro metais, e tornou-se uma grande montanha, e encheu toda a terra; ela representa que um novo reino devia surgir, depois dos quatro, e conquistar todas aquelas nações, e tornar-se muito grande, e durar até o fim dos séculos”.7
Tratando das visões subseqüentes de Daniel, Newton deixa claro que depois do quarto reino sobre a terra viria a segunda vinda de Cristo e o estabelecimento de Seu reino eterno: “A profecia do Filho do homem vindo nas nuvens do céu relaciona-se com a segunda vinda de Cristo.”8

Newton, o intérprete profético

Newton não estava satisfeito com a interpretação das profecias então corrente. Sustentava que os intérpretes não tinham “método prévio...Eles torcem partes da profecia, colocando-as fora de sua ordem natural, segundo sua conveniência”.9
Em harmonia com sua abordagem de questões científicas, Newton estabeleceu normas para interpretação profética, com uma codificação da linguagem profética a fim de eliminar a possibilidade de distorção ao bel-prazer dos intérpretes, e adotou o critério de deixar a Escritura revelar e explicar a Escritura.
Assim, a interpretação de Newton divergia da maioria de seus contemporâneos. Não estava interessado em aplicar a profecia para explicar a história política da Inglaterra, como alguns outros faziam, mas em focalizar o princípio da grande apostasia que ocorreu na igreja, e a restauração final da igreja à sua pureza.
Este interesse na restauração da igreja à pureza apostólica levou Newton a um estudo da segunda vinda de Cristo. Sua preocupação com o futuro o levou às 70 semanas de Daniel 9. Ele, como os dispensacionalistas de hoje, designava a última semana para um futuro indeterminado, quando a volta dos judeus e a reconstrução de Jerusalém iriam começar, culminando com a gloriosa segunda vinda de Cristo.
Essa interpretação, naturalmente, é contrária às crenças adventistas. Contudo, os princípios de interpretação de Newton estão em harmonia com os dos adventistas. Por exemplo, considere a interpretação que Newton faz dos símbolos:
“Ventos tempestuosos, ou o movimento de nuvens (significam) guerras;...Chuva, se não excessiva e orvalho e água viva (significam) as graças e doutrinas do Espírito; e a falta de chuva, a esterilidade espiritual. Na terra, a terra seca e as águas congregadas, como um mar, um rio, um dilúvio, significam o povo de várias regiões, nações e domínios....E diversos animais como um Leão, um Urso, um Leopardo, um Bode, segundo suas características, representam diversos reinos e corpos políticos... Um Governante é representado por ele cavalgar um animal; um Guerreiro e Conquistador, por ter uma espada e um arco; um homem poderoso, por sua estatura gigantesca; um juiz por pesos e medidas;...honra e glória, por uma roupagem esplêndida; dignidade real, por púrpura ou escarlate, ou por uma coroa; fraqueza, por roupas manchadas e sujas.”10
Na interpretação de profecias relacionadas com tempo, Newton sustentava que “os dias de Daniel são anos”.11 Ele aplicou este princípio às 70 semanas12 e aos “três tempos e meio” do período de apostasia. Newton deixa claro que o “dia profético” é “um ano solar”, e que “tempo” na profecia também é equivalente a um ano solar”; “E tempos e leis foram daí em diante dados em sua mão, por um tempo, tempos e metade de um tempo, ou três tempos e meio; isto é por 1260 anos solares, calculando o tempo por um ano de 360 dias, e um dia por um ano solar”.13

Conclusão

Newton era muito cauteloso em suas crenças religiosas. Isto em parte explica por que não publicou suas obras teológicas em vida. Talvez Newton, cônscio do ambiente religioso inglês, não queria ser acusado de heresia, mas seguiu a verdade como a via na Bíblia. Felizmente, suas obras teológicas foram publicadas postumamente.
Como adventistas do sétimo dia, podemos não concordar com todas as interpretações de Newton das profecias bíblicas. Mas podemos tirar proveito de suas obras teológicas e de sua metodologia cuidadosa, de modo a podermos ficar firmes na fé, mesmo quando seguindo estudos científicos. Aqui está um gigante da ciência que não se envergonhava de sua fé e que devotou tempo para compreender a Palavra de Deus tanto no que toca sua predição do movimento da história como em prover diretriz para nossa vida pessoal.

Site da Sociedade Criacionista Brasileira: www.scb.org.br
 
Ruy Carlos de Camargo Vieira (Ph.D., Universidade de S. Paulo) é engenheiro mecânico e elétrico e presentemente membro do Conselho Superior da Agência Espacial Brasileira. Em 1971 o Dr. Vieira fundou a Sociedade Criacionista Brasileira e lançou a Folha Criacionista, uma revista publicada no Brasil duas vezes por ano. Seu endereço: Caixa Postal 08743; 70312-970 Brasília, D.F.; Brasil. Fax: 55-61-577-3892.

Notas e referências
1.   Ver meu Sir Isaac Newton: Adventista? livrinho publicado pela Sociedade Criacionista Brasileira.
2.   Richard S. Westfall, The Life of Isaac Newton (Cambridge: University Press, 1993), pág. 204.
3.   Bernard Cohen, Isaac Newton: Papers & Letters on Natural Philosophy (Cambridge: Harvard University Press, 1958), pág. 284.
4.   Westfall, pág. 301.
5.   Ibid., pág. 300
6.   Ibid., pág. 128.
7.   Isaac Newton, Observations Upon the Prophecies of Daniel and the Apocalypse of St. John, págs. 25-26.
8.   Ibid., pág. 128.
9.   Westfall, págs. 128,129.
10. Newton, Observations, págs. 18-22.
11. Ibid., pág. 122.
12. Ibid., pág. 130.
13. Ibid., págs. 113, 114.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Histórias dos Pioneiros - Uriah Smith

Com quatro anos de idade, Uriah Smith estava doente, muito doente, com algum tipo de febre.

A enfermidade passou, mas o deixou com uma úlcera que não sarava na sua perna. E por fim aos doze anos de idade, com a volta de febre e com uma perna dura, o famoso cirurgião o Dr. Amós Twitchell, amputou a perna do menino durante uma operação de vinte minutos realizada sobre a mesa da cozinha da família Smith, não havendo anestesia na época e sendo ele ainda novo demais para tomar uísque (a anestesia daquela época) podemos imaginar que horror deve ter sido aqueles momentos de gritos do menino ecoando pela casa, e que dor! Deve ter ele sentido. Deus certamente deve ter enviado Seu melhor anjo-cirurgião, para ficar ao lado do Doutor, e guiar-lhe os pensamentos e atos enquanto realizava aquela primitiva cirurgia, e também para garantir que não resultasse numa infecção – a causa comum de mortes após uma cirurgia naquele tempo.


Numa carta escrita para J. F. Barbaret, na década de 1890, estava a descrição que ele mesmo fez do trágico evento: “Tive uma necrose óssea na minha perna aos quatro anos de idade. Aos doze vi-me com uma perna atrofiada e repuxada e um joelho rígido, e a febre manifestando-se novamente. Era evidente que a perna precisava ser cortada ou eu perderia a vida. Bem não sei de nada com que se possa cortar uma perna a não ser uma faca. Assim, foi usada uma faca, e não tenho problema desde então, exceto o incômodo de usar um membro artificial.” Interessante é que ele não parece ter-se perturbado, não há evidências de que teve qualquer depressão traumática ou perda de auto-estima. Aceitou o fato da vida, adaptando-se à situação, cresceu e se tornou um homem inteligente e bem ajustado, admirado e apreciado por todos os que o conheciam, estudou para ser professor, e foi oferecido um cargo de prestigio e bem remunerado de diretor de uma universidade. Mas ele renunciou ao mundo, para aceitar o chamado maior de Deus.


No verão de 1844 foi batizado, ainda menino, e sofreu a decepção de Jesus não ter vindo em 22 de outubro daquele ano. Depois disso não se interessou mais pelas coisas espirituais, até que com a morte de seu pai inesperadamente, os pensamentos dele se voltaram para o bem-estar espiritual, e começou a estudar a mensagem do advento. Em 1852 numa conferência em Washington, pela primeira vez ouviu Tiago e Ellen White falando, falaram claramente a razão para o desapontamento, e explicaram porque haviam adotado a guarda do sábado. Ele foi para casa impressionado, mas era muito cauteloso, então estudou o assunto durante três meses. Depois de uma árdua batalha com suas próprias ambições, posteriormente escreveu: “Um exame dos argumentos sobre nossa posição me convenceu plenamente a andar com os remanescentes, que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus.”.


Ele mandou um poema dele próprio, esperando que fosse publicado no periódico Review Herald, o engraçado é que o poema parecia mais um sermão, intitulado: “A Exortadora Voz do Tempo e da Profecia.” Com uma incrível extensão de 35 mil palavras! Tiago White (Editor do periódico) gostou tanto que imprimiu em partes sermão poético durante cinco meses. Tiago chamou ele para fazer parte da equipe de publicação da Review, ele aceitou, e com 21 anos de idade começou seu trabalho que seria pelo resto de sua vida. Com 23 anos apareceu pela primeira vez seu nome na revista como editor, e durante mais de 50 anos estaria relacionado com a  Review.


Ele escreveu mais de 18 livros, além do bem conhecido livro “As Profecias de Daniel e Apocalipse” (vários títulos foram dados a este livro) tão clara são suas explicações no livro que foi considerado o campeão no entendimento das profecias, seu livro até hoje não foi ultrapassado, Ellen G. White escreve que livros como Patriarcas e Profetas, Grande Conflito (ambos dela) e o livro dele, deveriam ser vendidos porque eram exatamente a mensagem que o povo necessitava, diz ainda que neles existem preciosas instruções, e todo esforço deve ser feito para os pôr diante do povo. W. A. Spicer descreveu ele da seguinte maneira: “sempre calmo e sereno, jamais ansioso ou agitado”. É dito sobre ele também que ficava silencioso nas reuniões quando ouvia críticas. Raramente precisava desculpar-se por palavras insensatas – porque não as proferia. O são juízo e a capacidade de ponderar as coisas fizeram dele um sábio conselheiro, tanto em sua função oficial na igreja, como na vida pessoal.

Também demonstrou seu interesse para com a música, dizendo ser a “linguagem do Céu” disse também que “a música é um dom divino, e deve ser dedicado a propósitos divinos”. 6 de março de 1903 quando ia a pé para o trabalho, ele cai na grama, (provavelmente sofreu um ataque cardíaco) os amigos de trabalho o socorrem, e levam ele até o escritório, lá um médico cuidou dele até que algumas horas depois ele falece de um ataque cardíaco fulminante. No seu bolso carregava manuscritos de um sermão que planejava apresentar, que constavam estas palavras: “Estou com todos vocês no esforço de proclamar este evangelho do reino nesta geração, como testemunho a todas as nações. E quando isso se completar, será o sinal para a coroação de nosso Rei vindouro”.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A Proclamação da Mensagem do 1°. Anjo - Parte IV


Para o internatura acessar a terceira parte clique aqui, segunda parte clique aqui, para primeira parte, aqui.

Os Escritos de Lacunza

                Há também o Arauto Manuel Lacunza (1731-1801) nascido em Santiago do Chile, na América do Sul. Sua pregação foi conhecida somente depois de sua morte devido a um livro deixado com o título: La Venida del Mesías en Gloria y Magestad. Seu manuscrito foi publicado pela primeira vez em 1812 na Espanha. Em 1824 foi proibido oficialmente sua publicação em toda e qualquer língua, pelo papa Leão XII; mas ao contrário de acabar com sua influência a proibição papal só levou a uma maior recomendação dos eruditos protestantes para com o livro. É a Lacunza atribuída a declaração: "Este livro foi mais resultado dos joelhos do que da cabeça." ("El Padre Manuel Lacunza y el Milenarismo", Revista Chilena de Historia y Geografía 115 (1950), pág. 143).

“Na América do Sul, em meio de desumanidade e artimanha dos padres, Lacunza, jesuíta espanhol, teve acesso às Escrituras, e recebeu assim a verdade da imediata volta de Cristo. Constrangido a fazer a advertência, e desejando contudo escapar das censuras de Roma, publicou suas idéias sob o pseudônimo de "Rabbi Ben-Israel", representando-se a si mesmo como judeu converso. Lacunza viveu no século XVIII, mas foi aproximadamente em 1825 que seu livro, encontrando acesso em Londres, foi traduzido para a língua inglesa. Sua publicação serviu para aprofundar o interesse que já se despertava na Inglaterra pelo assunto do segundo advento” (O Grande Conflito, pág. 363).

                De fato, Como resultado da grande circulação dos escritos de Lacunza na Europa e América Espanhola, seus pontos de vistas foram amplamente discutidos durante as conferências proféticas interdenominacionais.
                Josias Litch, um líder milerita dos Estados Unidos, fala sobre o despertamento na Inglaterra devido ao livro de Lacunza: conta que o “livro caiu nas mãos de Edward Irving. Os olhos deste renomado e eloqüente pregador foram abertos para a gloriosa verdade da vinda pré-milenial de Cristo, da qual ele se tornou um ardoroso aderente. Ele começou a traduzir Ben-Ezra e então a escrever numerosas obras sobre o mesmo tópico. Durante algum tempo, estas obras produziram na Europa a mesma ressonância que Miller obteve anos mais tarde em seu país” (Lacunza, un heraldo de la Segunda Venida de Cristo, por Félix Alfredo Vaucher, pág. 60).

Arautos na Inglaterra

 O despertamento que houve na Inglaterra, tem como destaque os muitos pregadores que aderiram à mensagem do breve retorno de Cristo:

“Já em 1826 a mensagem do advento começou a ser pregada na Inglaterra. O movimento ali não tomou forma definida como na América do Norte; o tempo exato do advento não era geralmente tão ensinado, mas proclamava-se vastamente a grande verdade da próxima vinda de Cristo em poder e glória. E isto não somente entre os dissidentes e não conformistas. Mourante Brock, escritor inglês, declara que mais ou menos setecentos pastores da Igreja Anglicana estavam empenhados na pregação deste "evangelho do reino". A mensagem que indicava 1844 como o tempo da vinda do Senhor, foi também dada na Grã-Bretanha. Publicações sobre o advento, provenientes dos Estados Unidos, eram amplamente disseminadas. Livros e revistas reeditavam-se na Inglaterra. E, em 1842, Robert Winter, inglês nato, que recebera na América do Norte a fé do advento, voltou a seu país natal para anunciar a vinda do Senhor. Muitos se uniram a ele na obra, e a mensagem do juízo foi proclamada em várias partes da Inglaterra” (O Grande Conflito, pág. 362).

                Algumas personalidades se destacam na Inglaterra: Há Lewis Way e Henry Drummond (1786-1860) que tinham interesse num trabalho especial para com os judeus, Drummond próspero banqueiro já renunciara a sua carreira política como membro do parlamento em 1817 para se dedicar ao trabalho cristão, e conhecendo a causa adventista se dispôs mais ainda; foi ele que convidou vários ministros e leigos para um estudo intensivo das profecias em 1826 em sua propriedade de Albury Park, e que se tornaria um evento anual nos próximos quatro anos. Nessa ocasião concordaram que a Vinda de Cristo estava às portas, e vários destes O esperavam para 1847. Drummond ajudou entre outros a José Wolff, filho de um rabino alemão, mas que se convertera ao cristianismo ainda na juventude, em suas viagens ao oriente (quanto a essa personalidade dedicaremos mais adiante um tópico).
                Já nos referimos à Edward Irving (1792-1834), um ministro presbiteriano que era conhecido por ser um homem piedoso, e por sua eloqüência como pregador, na qual resultou em que sua congregação de Londres aumentasse de 500 pessoas, para mais de 1500. Ele encontrou a esperança do retorno de Cristo no livro de Lacunza que ele mesmo traduziu para o inglês, gerando um impulso a mais no inicia desta pregação na Inglaterra. Irving também fez viagens à Escócia, aonde havia crescido, e falou em auditórios de até 12 mil pessoas ao ar livre.
                Nenhum país europeu teve tantos Arautos do Advento; e sem dúvida poder-se-ia dedicar muitas outras páginas aos expositores da mensagem da esperança do advento na Inglaterra. Mas prosseguiremos para informações de mais lugares em que a mensagem do primeiro anjo teve alcance. [M. Borges]

 Para ler a quinta parte, clique aqui

domingo, 19 de dezembro de 2010

Peregrino em Terras Estranhas: José Wolff - Parte Final

Caso não tenha visto a primeira parte clique aqui

Por C. Mervyn Maxwell

Apoio financeiro para suas viagens  
Como financiou ele suas viagens? Principalmente pela liberalidade de Henry Drummond e seus amigos. Henry Drummond (1786-1860) era tanto um perito em agricultura científica como banqueiro. Por muitos anos foi um membro respeitado do Parlamento. Para sua segunda e terceira viagens Wolff foi patrocinado pela Sociedade para Promover o Cristianismo entre os judeus, que por sua vez era patrocinada por Henry Drummond.
Wolff foi financiado também por seus parentes por afinidade. Sua esposa, à qual em seus livros ele se refere como “Lady Georgiana”, pertencia a uma família nobre. Esta dama simpática ocasionalmente acompanhava seu marido em suas perigosas viagens. Nas horas escuras, quando Wolff pensava que ia ser executado em Bocara, escreveu uma nota em sua Bíblia: “Minha querida Georgiana, amei-a até à morte. Bocara 1844”.
Os judeus viviam em lugares espalhados. Os muçulmanos que formavam a maior parte da população em muitas áreas, não eram necessariamente hostis a um judeu cristão. Wolff, que raramente ficava em um mesmo lugar, falava em particular e em público tanto com judeus como com muçulmanos bem como com povos de outras religiões, distribuindo cópias das Escrituras na língua local. Também se encontrava com europeus que estavam servindo em missões diplomáticas ou comerciais, longe de casa. Muitas vezes lhe davam ouvidos amistosos. Quantos conversos fez, é difícil verificar, visto que não tentava dar um cunho institucional a seu trabalho, apesar de fundar umas poucas escolas.

Apelo baseado na profecia
Como acabamos de ver, a maior paixão de Wolff, como judeu cristão, era ganhar outros judeus para Cristo. Três de suas viagens ao Oriente Próximo foram empreendidas para encontrar e converter judeus a Cristo. Ao fazê-lo, também pregava a muitos cristãos, muçulmanos, hindus, parsis e outros. Seu método fundamental com judeus era primeiro afirmar que o Messias viria logo para estabelecer Seu reino em Jerusalém. A seguir, mostrava, a partir de Isaías 53, Miquéias 5:2 e outros textos messiânicos, que o Messias devia ser identificado com Jesus Cristo. Para confirmar sua identificação do Messias com Jesus, ele empregava a profecia das 70 semanas de Daniel 9, descrevendo seu cumprimento preciso na vida e ministério de Cristo. Concluída a explicação de Daniel 9, ele passava a expor os 2300 dias de Daniel 8:14, demonstrando que iam terminar em 1847, com a vinda do Messias em poder e glória. Tendo gravado na mente de seus ouvintes que o Messias iria voltar para estabelecer o reino judaico dentro de poucos anos, Wolff apelava para a crença em Jesus como Senhor e Salvador.
Notem que 1847, não 1844, foi a data que Wolff dava para a terminação dos 2300 dias. Não precisamos nos preocupar sobre a diferença, pois era apenas técnica, baseada na informação que ele tinha quanto à data do decreto de Artaxerxes em Esdras 7.
Muita gente pensa que a interpretação corrente da profecia dos 2300 dias foi desenvolvida por Guilherme Miller. Mas a primeira pessoa a ver os 2300 dias (“duas mil e trezentas tardes e manhãs”) de Daniel 8:14 como 2300 anos, foi um rabino, Nahawendi, que viveu no século nove. Como rabino, Nahawendi era um perito em hebraico. Com efeito, nos séculos nove e dez, rabinos (todos eles peritos em hebraico) na Pérsia, França, Espanha e Portugal estavam ensinando que os 2300 dias eram 2300 anos.
Através dos séculos, outros notáveis estudantes da Bíblia fizeram a mesma descoberta, entre eles Arnaldo Villanova, médico particular de vários papas. No tempo em que Miller nasceu, Johannes Petri, na Alemanha, estava mostrando que os 2300 dias eram ligados com as 70 semanas, com o resultado de que é fácil demonstrar que os 2300 dias deviam terminar por volta de 1840, porque se pode marcar o começo das 70 semanas em 457 a.C.
Miller descobriu a profecia dos 2300 anos em 1818, mas não começou a pregar a respeito antes de 1831. Ao mesmo tempo, bem longe no Oriente, Joseph Wolff, que nunca ouvira falar de Miller e que conhecia o hebraico a ponto de poder ensiná-lo, também tinha descoberto a mesma profecia e já começara a pregar a respeito.
Wolff sentiu-se confirmado em sua compreensão dos 2300 dias como 2300 anos quando visitou o mosteiro ao pé do Monte Sinai. Aí, para seu deleite, achou um livro de Johannes Stauros, um judeu búlgaro que vivera dois séculos antes, que também ensinara que os 2300 dias de Daniel 8 e os 1260 dias de Daniel 12 eram símbolos desses muitos anos.
Com o correr dos anos e ao se aproximar 1847, as pessoas perguntavam a Wolff que diria ele se o ano de 1847 passasse sem a volta do Messias. Ele respondeu simplesmente que admitiria que estava enganado. Wolff era um missionário cristão corajoso, ativo, criativo e inteligente. Ao pregar sobre a profecia dos 2300 dias, estava fazendo algo que Deus queria que fosse feito, algo cujo tempo chegara. Os 2300 dias terminaram por volta de 1840, e o Messias fez algo então em conexão com Seu reino. Daniel 7:9-14 mostra que naquele tempo “o Filho do homem” veio “nas nuvens do céu” ao “Ancião de dias” (não à Terra) para iniciar o julgamento no Céu, onde Ele deveria receber “o reino, o poder, e a força, e a majestade” (Daniel 2:37). Wolff estava mais certo do que imaginara.
Ele não descobriu seu erro até 1847. Gostaríamos que ele tivesse estado em mais íntimo contato com seus irmãos adventistas na América do Norte. Já por volta de 1847, chegou-se à compreensão na América do Norte de que a vinda de Cristo em 1844 não foi à Terra mas ao “Ancião de dias” no Céu, para o começo do julgamento lá, e, como acabamos de notar, para a recepção de Seu reino lá.

Anos posteriores
Em seus últimos anos, Wolff serviu como pastor de uma paróquia da Igreja Anglicana, no sudoeste da Inglaterra. Era imensamente popular como pregador. Foi convidado para falar em muitas igrejas na Inglaterra. De amigos que ele fazia em toda parte, pôde levantar recursos suficientes para uma nova igreja para sua congregação pobre e rural. Também conseguiu prover cada família em sua igreja com alimento e combustível, cada ano, durante os meses do inverno. Era muito amado.
A carreira assombrosa de Joseph Wolff é fascinante em si mesma, mas para os Adventistas do Sétimo Dia tem um interesse único, porque em todas as suas viagens perigosas ele anunciou a segunda vinda de Cristo sobre a base da profecia dos 2300 anos. Ele foi talvez o mais pitoresco do grande número de pregadores que anunciaram a Segunda Vinda em boa parte do mundo no Grande Despertamento do Segundo Advento das décadas de 1830 e 1840.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Peregrino em Terras Estranhas: José Wolff - Parte I

Por C. Mervyn Maxwell
Senhor Wolff, dez homens foram encarregados de assassiná-lo hoje à noite ao chegar a seu próximo destino. Eis uma lista de seus nomes. Que Alá o defenda”.
Com tais palavras soando em seus ouvidos, Joseph Wolff despediu-se em 1844 da cidade de Bocara, no sudoeste do Uzbekistan.
Joseph Wolff! Seu nome me tem intrigado desde minha infância, este homem que podia falar tantas línguas, que sobreviveu a tantas aventuras e que pregou a Segunda Vinda em tantos lugares da África e do Oriente Próximo na época em que Guilherme Miller estava pregando na América. Ellen G. White lhe devotou cinco páginas no Conflito dos Séculos (357-362).
“Graças aos labores,” escreveu a Sra. White, “de Guilherme Miller e muitos outros na América, de setecentos ministros na Inglaterra, de Bengel e outros na Alemanha, de Gaussen e seus seguidores na França e na Suíça, de muitos ministros na Escandinávia, de um jesuíta converso na América do Sul e do Dr. Joseph Wolff em muitos países orientais e da África, a mensagem do advento foi levada a vastas regiões do globo habitável”. Southern Watchman (24 de Janeiro, 1905).
Mas de volta a Bocara, Wolff, regozijamo-nos em saber, não foi assassinado depois de deixar a cidade. Dois anos antes, ele tinha partido da Inglaterra com o propósito de verificar a sorte de dois oficiais do exército britânico que se dizia terem sido mortos. Afinal ele chegou a Bocara e foi informado de que não apenas tinham sido assassinados mas também quem tinha sido o assassino — um dos líderes da cidade. Embora fizesse muitos amigos entre os chefões da cidade, escapou por pouco de ser executado por ordem do mesmo chefão. Uma carta do xá da Pérsia chegou justamente em tempo para salvar sua vida. Mesmo assim, ao deixar a cidade, foi informado de que ainda não estava seguro. Depois de um dia de viagem, ele devia ser assassinado quando se hospedasse para a noite.
Mas ele não foi morto naquela noite. No final de um dia de viagem, Wolff convocou uma reunião pública. Depois de o povo reunir-se, anunciou publicamente os detalhes da trama contra ele. O fato de ele poder falar a língua local foi-lhe vantajoso. O povo da área cerrou fileiras para proteger esse líder religioso do Oeste, este “dervixe da Inglaterra e da América”. Os eventuais assassinos foram presos e punidos apropriadamente.
Durante sua gloriosa carreira, Wolff enfrentou inúmeros perigos. Sofreu fome, foi assediado por ladrões, e três vezes condenado à morte. Foi amarrado à cauda de um asno e oferecido à venda como escravo por “duas libras e dez shillings”. Um ladrão nadou até o barco no qual viajava e agarrou seu paletó que estava dobrado atrás dele. Amigos o ajudaram a fugir de uma cidade 30 minutos antes que uma turba chegasse, a qual queria despedaçá-lo. Recebeu duzentas pancadas em seus pés nus e depois, antes que seus pés sarassem, foi obrigado a andar 15 horas sem água, num dia de muito calor. Em troca de sua vida, exigiram que entregasse a bandidos tudo que tinha consigo: dinheiro, Bíblias, folhetos, alimento e mesmo sua roupa, obrigando-o a andar centenas de quilômetros através de montanhas frígidas sem quase nenhuma roupa.
Wolff sobreviveu em parte porque possuía uma simpatia natural e em parte porque podia falar várias línguas — mais ou menos 14 — dos diferentes povos entre os quais viajava. Era prudente em levar documentos oficiais, e às vezes funcionários de governos amigos chegavam no momento crítico. Sem dúvida, como um missionário muito dedicado, ele devia sua sobrevivência à intervenção divina. Certa vez amigos de bordo impediram que entrasse no porto, no barco a remo, do navio. Ao voltar o barco mais tarde ao navio, tiros foram disparados, e uma bala foi ouvida zumbir bem sobre o lugar que Wolff teria ocupado. Wolff cria que Deus o protegera.
Um senso de humor também o ajudou em certas ocasiões. Um desordeiro com ficha na polícia tentou certa vez perturbar uma reunião, exigindo prova “matemática” do cristianismo. O homem orgulhava-se de ser matemático. Wolff perguntou ao desordeiro matemático se ele jamais havia se alimentado. Quando o homem admitiu que sim, Wolff perguntou-lhe por que o fizera. O homem, sem dúvida perplexo, respondeu que ele comera porque tinha fome, ao que Wolff respondeu: “Pode você dar uma prova matemática da fome?”

Missionário aos judeus
Wolff nasceu na Alemanha em 1795 e morreu na Inglaterra, em 1862, como ministro da Igreja Anglicana. Em criança era conhecido simplesmente como “Wolff”, não assumindo o nome de Joseph até tornar-se católico, aos 17 anos. O pai de Wolff, um rabino, estava decidido que seu filho não fosse contaminado pela sociedade predominantemente cristã. Para certificar-se de que nada que não fosse alimento kosher, caísse na provisão de leite da família, o pai encarregou o menino de sete anos para vigiar de perto quando o vizinho ordenhava a vaca. O vizinho, que era luterano, entabolou conversa com Wolff sobre o Messias, chamando sua atenção para Isaías 53. Wolff jamais se esqueceu do que aprendera com o vizinho, mas logo aprendeu a nada dizer ao pai a respeito.
Como adolescente, estudou em muitos lugares, inclusive nas melhores escolas da Europa. Algumas eram liberais, outras conservadoras; algumas eram católicas, outras protestantes. Muitas vezes ele melhorava suas finanças ensinando hebraico. Outras vezes garantia sua subsistência com o apoio de famílias de posse.
Aos 17 anos ele abraçou o catolicismo romano. Assumiu o nome de “Joseph” como seu nome cristão. Pouco depois, embarcou para Roma. Nascido judeu, tinha descoberto enorme alegria encontrando o Messias e almejava partilhar sua alegria com judeus em toda parte. Em Roma, esperava ser preparado como missionário no Colégio da Propaganda.
Mas sua experiência em Roma não foi animadora. Ficou perplexo com a ênfase sobre a infalibilidade papal, e começou a argumentar abertamente, e “nem sempre cortesmente”, em classe. Seus mestres, aborrecidos, finalmente obtiveram uma ordem para que ele saísse da cidade. No entanto, não foi obrigado a partir até que pela providência divina um banqueiro inglês, Henry Drummond, que aparentemente estava em Roma a negócio, ouviu falar sobre esse estudante corajoso, e entrou em contato com ele. Convidou Joseph a ir à Inglaterra, onde amigos cristãos patrocinariam seus estudos. Um ano mais tarde, Joseph embarcou para a Inglaterra.
Na Inglaterra, Drummond deu-lhe cordiais boas-vindas, e o ajudou a continuar seus estudos, agora sob a direção de professores protestantes. Como parte de sua educação protestante, recebeu instrução específica sobre como ganhar judeus para Cristo.
Joseph Wolff fez três grandes viagens missionárias, 1821-1826, 1828-1834 e 1836-1838, além de sua viagem a Bocara (1843-1845), à procura de dois militares britânicos. Entrementes, visitou a Grécia, Malta, Criméia, Palestina, Turquia, Egito, Ásia Central, Abissínia, Iêmem, Índia e outros países, incluindo mesmo os Estados Unidos.
Ele foi à América por recomendação de médicos de Bombaim. Seu plano era pregar a respeito de Cristo na Índia, mas sua saúde na época era tão precária que os médicos disseram que ele morreria se tentasse fazê-lo. Recomendaram que, em vez disso, viajasse para a América. Ele o fez e foi recebido como um herói. Por proposta do presidente John Quincy Adams, foi convidado a pregar numa reunião de ambas as casas do Congresso. Foi também convidado a falar aos legisladores dos Estados de Nova Jersey e Pensilvânia. Ele diz que discursou sobre suas pesquisas na Ásia e também sobre o reino pessoal de Jesus Cristo. Durante sua estada na América, foi ordenado diácono da Igreja Anglicana e serviu por um mês como pastor antes de voltar à Inglaterra.

Para ver a segunda e última parte do artigo clique aqui.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O Primeiro Missionário Adventista Além-Mar - Jhon N. Andrews

John Nevins Andrews estava em pé na pla­taforma junto ao mar com seus dois filhos, Char­les e Mary, escutando as ondas baterem contra o navio que os levaria através do Atlântico. Após várias semanas de preparação e oração, eles esta­vam prontos para partir. Ele gostaria que sua es­posa, Angeline, estivesse junto deles, mas ela ha­via falecido vítima de um derrame cerebral dois anos antes.
Era o ano de 1874, e os líderes da igreja ha­viam solicitado que Andrews fosse à Europa como missionário. Ele sabia que o trabalho não seria fá­cil, mas estava determinado a fazer o seu melhor para espalhar o Evangelho. Mais tarde, Ellen Whi­te escreveu aos líderes da igreja na Europa dizen­do: “Enviamos o melhor homem de nossas fileiras”.
Quando era garoto, J. N. Andrews nunca sonhou em se tornar um missionário. Ele nasceu em 22 de julho de 1829, em Poland, Maine, na cos­ta oriental dos Estados Unidos. Ele foi à escola somente até aos 11 anos, mas ele nunca parou de aprender. De fato, algumas pessoas dizem que ele era fluente em sete línguas e podia recitar o Novo Testamento de memória!
Seu tio Charles, membro do Congresso dos Estados Unidos, ofereceu-se para pagar seus estudos. “Você pode es­tudar Direito e tornar-se um po­lítico”, ele lhe disse. Mas quando Andrews aceitou guardar o sába­do aos 15 anos, decidiu tornar-se um pastor ad­ventista.
Andrews auxiliou de várias formas a jovem Igreja Adventista. Ele escreveu panfletos e livros importantes, falou em reuniões até ficar rouco, estudou a Bíblia e auxiliou aos demais membros a determinar que o início do sábado é no pôr-do-sol da sexta-feira. Viajou para Washington, DC, e ajudou na obtenção do status de não-combatên­cia para os adventistas durante a Guerra Civil Americana. E em 1867, foi eleito presidente da As­sociação Geral.
Mesmo sendo um homem importante na Igreja Adventista, Andrews nunca estava ocupa­do demais para ser gentil e amigável. Durante a primeira reunião campal, realizada em Wright, Michigan, ele caminhou perto das tendas per­guntando aos seus ocupantes: “Vocês estão con­fortáveis aí?”
Andrews tornou-se o primeiro missioná­rio adventista oficial em terras estrangeiras. Ele e seus filhos trabalharam duro para iniciar uma casa publicadora adventista na Suíça e para estabelecer uma igreja naquele local. Não tinham muito dinheiro, mas estavam felizes por trabalhar para Deus.
Enquanto ainda trabalhava como missio­nário na Europa, J. N. Andrews faleceu vítima de tuberculose, aos 54 anos. Foi sepultado em Basel, Suíça.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Histórias dos Pioneiros - Uriah Smith



Com quatro anos de idade, Uriah Smith estava doente, muito doente, com algum tipo de febre.

A enfermidade passou, mas o deixou com uma úlcera que não sarava na sua perna. E por fim aos doze anos de idade, com a volta de febre e com uma perna dura, o famoso cirurgião o Dr. Amós Twitchell, amputou a perna do menino durante uma operação de vinte minutos realizada sobre a mesa da cozinha da família Smith, não havendo anestesia na época e sendo ele ainda novo demais para tomar uísque (a anestesia daquela época) podemos imaginar que horror deve ter sido aqueles momentos de gritos do menino ecoando pela casa, e que dor! Deve ter ele sentido. Deus certamente deve ter enviado Seu melhor anjo-cirurgião, para ficar ao lado do Doutor, e guiar-lhe os pensamentos e atos enquanto realizava aquela primitiva cirurgia, e também para garantir que não resultasse numa infecção – a causa comum de mortes após uma cirurgia naquele tempo.


Numa carta escrita para J. F. Barbaret, na década de 1890, estava a descrição que ele mesmo fez do trágico evento: “Tive uma necrose óssea na minha perna aos quatro anos de idade. Aos doze vi-me com uma perna atrofiada e repuxada e um joelho rígido, e a febre manifestando-se novamente. Era evidente que a perna precisava ser cortada ou eu perderia a vida. Bem não sei de nada com que se possa cortar uma perna a não ser uma faca. Assim, foi usada uma faca, e não tenho problema desde então, exceto o incômodo de usar um membro artificial.” Interessante é que ele não parece ter-se perturbado, não há evidências de que teve qualquer depressão traumática ou perda de auto-estima. Aceitou o fato da vida, adaptando-se à situação, cresceu e se tornou um homem inteligente e bem ajustado, admirado e apreciado por todos os que o conheciam, estudou para ser professor, e foi oferecido um cargo de prestigio e bem remunerado de diretor de uma universidade. Mas ele renunciou ao mundo, para aceitar o chamado maior de Deus.


No verão de 1844 foi batizado, ainda menino, e sofreu a decepção de Jesus não ter vindo em 22 de outubro daquele ano. Depois disso não se interessou mais pelas coisas espirituais, até que com a morte de seu pai inesperadamente, os pensamentos dele se voltaram para o bem-estar espiritual, e começou a estudar a mensagem do advento. Em 1852 numa conferência em Washington, pela primeira vez ouviu Tiago e Ellen White falando, falaram claramente a razão para o desapontamento, e explicaram porque haviam adotado a guarda do sábado. Ele foi para casa impressionado, mas era muito cauteloso, então estudou o assunto durante três meses. Depois de uma árdua batalha com suas próprias ambições, posteriormente escreveu: “Um exame dos argumentos sobre nossa posição me convenceu plenamente a andar com os remanescentes, que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus.”.


Ele mandou um poema dele próprio, esperando que fosse publicado no periódico Review Herald, o engraçado é que o poema parecia mais um sermão, intitulado: “A Exortadora Voz do Tempo e da Profecia.” Com uma incrível extensão de 35 mil palavras! Tiago White (Editor do periódico) gostou tanto que imprimiu em partes sermão poético durante cinco meses. Tiago chamou ele para fazer parte da equipe de publicação da Review, ele aceitou, e com 21 anos de idade começou seu trabalho que seria pelo resto de sua vida. Com 23 anos apareceu pela primeira vez seu nome na revista como editor, e durante mais de 50 anos estaria relacionado com a  Review.


Ele escreveu mais de 18 livros, além do bem conhecido livro “As Profecias de Daniel e Apocalipse” (vários títulos foram dados a este livro) tão clara são suas explicações no livro que foi considerado o campeão no entendimento das profecias, seu livro até hoje não foi ultrapassado, Ellen G. White escreve que livros como Patriarcas e Profetas, Grande Conflito (ambos dela) e o livro dele, deveriam ser vendidos porque eram exatamente a mensagem que o povo necessitava, diz ainda que neles existem preciosas instruções, e todo esforço deve ser feito para os pôr diante do povo. W. A. Spicer descreveu ele da seguinte maneira: “sempre calmo e sereno, jamais ansioso ou agitado”. É dito sobre ele também que ficava silencioso nas reuniões quando ouvia críticas. Raramente precisava desculpar-se por palavras insensatas – porque não as proferia. O são juízo e a capacidade de ponderar as coisas fizeram dele um sábio conselheiro, tanto em sua função oficial na igreja, como na vida pessoal.

Também demonstrou seu interesse para com a música, dizendo ser a “linguagem do Céu” disse também que “a música é um dom divino, e deve ser dedicado a propósitos divinos”. 6 de março de 1903 quando ia a pé para o trabalho, ele cai na grama, (provavelmente sofreu um ataque cardíaco) os amigos de trabalho o socorrem, e levam ele até o escritório, lá um médico cuidou dele até que algumas horas depois ele falece de um ataque cardíaco fulminante. No seu bolso carregava manuscritos de um sermão que planejava apresentar, que constavam estas palavras: “Estou com todos vocês no esforço de proclamar este evangelho do reino nesta geração, como testemunho a todas as nações. E quando isso se completar, será o sinal para a coroação de nosso Rei vindouro”.
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