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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Pensamentos de Pascal N°. IV

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Não vos admireis de ver pessoas simples crer sem raciocínio. Deus lhes dá o amor a ele e o ódio a si mesmo. Inclina-lhes o coração a crer.

Nunca se crerá com uma crença útil e de fé se Deus não inclina a isso o coração; crer-se-á desde que ele o incline. É o que bem conhecia Davi quando dizia: inclina cor meum, Deus, in testimonia tua ["Inclina o meu coração, oh Deus, ao teu testemunho"] (Salmo CXIX [119], 36).

Os que crêem sem ter lido os Testamentos é porque têm uma disposição interior tão santa que o que ouvem dizer da nossa religião lhe é conforme. Sentem que um Deus os fez. Só querem amar a Deus, só querem odiar a si mesmos. Sentem que não têm por si mesmos a força para isso, que são incapazes de ir a Deus e que, se Deus não vem a eles, não podem ter nenhuma comunicação com ele. E ouvem dizer, em nossa religião, que é preciso amar somente a Deus e odiar somente a si mesmo; mas, sendo todos corrompidos e incapazes de Deus, Deus se fez homem para unir-se a nós. Não é preciso mais para persuadir homens que têm essa disposição no coração e que têm esse conhecimento do seu dever e de sua incapacidade.

Os que vemos tornarem-se cristãos sem o conhecimento das profecias e das provas não deixam de julgá-las tão bem quanto os que têm esse conhecimento. Julgam-nas pelo coração, como os outros as julgam pelo espírito. É o próprio Deus que os inclina a crer, e assim estão eles muito eficazmente persuadidos.

Confesso que um desses cristãos que crêem sem provas não terá, talvez, com que convencer um infiel que lhe alegar tal coisa. Mas, os que conhecem as provas da religião provarão sem dificuldade que esse fiel é verdadeiramente inspirado por Deus, embora não possa prová-lo ele próprio. Pág. 11.

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Considerando essa lei que eles se gabam de terem recebido de Deus, acho-a admirável; é a primeira lei de todas, de tal maneira que, antes mesmo da palavra lei ter sido usada pelos gregos, havia cerca de mil anos que eles a tinham recebido e observado sem interrupção. Assim, acho estranho que a primeira lei do mundo seja considerada também como a mais perfeita, a ponto dos maiores legisladores terem emprestado dela as suas, como acontece com a lei das doze tábuas de Atenas, que foi em seguida tomada pelos romanos, e como seria fácil de mostrar, se Josefo e outros não tivessem tratado suficientemente dessa matéria.

Mas, essa lei é ao mesmo tempo a mais severa e a mais rigorosa de todas, obrigando esse povo, para retê-lo no seu dever, a mil observações particulares e penosas, sob pena da vida. De sorte que é uma coisa assombrosa que ela seja sempre conservada durante tantos séculos por um povo rebelde e impaciente como esse, enquanto que todos os outros Estados mudaram de tempos a tempos as suas leis, embora fossem, ao contrário, bastante fáceis (de observar).

(Esse povo é ainda admirável em sinceridade). Eles trazem com amor e fidelidade o livro em que Moisés declara que sempre foram ingratos para com Deus e que sabe que o serão ainda mais depois de sua morte, mas que chama o céu e a terra como testemunho contra eles, e que isso ele lhes disse bastante; que, enfim, Deus, irritando-se contra eles, os dispersará entre todos os povos da terra; que, como o irritaram adorando deuses que não eram o seu Deus, assim também ele os provocará, os irritará chamando um povo que não era o seu povo. No entanto, esse livro, que os desonra em tantos trechos, é conservado por eles à custa de sua vida. É uma sinceridade que não tem exemplo no mundo, nem sua raiz na natureza. Pág. 12.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Pensamentos de Pascal N°. III

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Vejo várias religiões contrárias, mas todas falsas, exceto uma. Cada qual quer ser acreditada por sua própria autoridade e ameaça os incrédulos. Não creio nelas; todos podem dizer isso, todos podem dizer-se profetas. Vejo, porém, a religião cristã, na qual encontro profecias; e é o que nem todos podem fazer.

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Importa, igualmente, que os homens conheçam esses dois pontos; e é igualmente perigoso que o homem conheça Deus sem conhecer sua miséria, e conheça sua miséria sem conhecer o Redentor que pode curá-lo dela. Um só desses conhecimentos faz ou o orgulho dos filósofos que conheceram Deus, e não sua miséria, ou o desespero dos ateus, que conhecem sua miséria sem Redentor. Pág. 7.

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Coisa assombrosa, no entanto, que o mistério mais distanciado do nosso conhecimento, que é o da transmissão do pecado original, seja uma coisa sem a qual não podemos ter nenhum conhecimento de nós mesmos! Sem dúvida, não há nada que choque mais a nossa razão do que dizer que o pecado do primeiro homem tornou culpáveis os que, estando tão afastados dessa fonte, parecem incapazes de participar dele. Essa emanação não nos parece somente impossível, mas nos parece até mais que injusta: com efeito, que há de mais contrário às regras da nossa miserável justiça do que danar eternamente uma criança incapaz de vontade por um pecado em que parece ter tido tão pouca parte, que cometeu seis mil anos antes de sua existência? Certamente, nada nos choca mais rudemente do que essa doutrina; no entanto, sem esse mistério, que é o mais incompreensível de todos, somos incompreensíveis a nós mesmos. O nó da nossa condição toma suas voltas e pregas nesse abismo. De sorte que o homem é mais inconcebível sem esse mistério do que esse mistério inconcebível ao homem. Pág. 8-9.

O pecado original é uma loucura diante dos homens; mas, é dado como tal. Não deveis,pois, censurar de falta de razão essa doutrina, uma vez que a dou como não tendo razão. Mas, essa loucura é mais sábia do que toda a sabedoria dos homens: Quod stultum est Dei, sapientius est hominibus ["Porque o louco é de Deus, o sábio é dos homens"] (I Coríntios, 1, 25). Com efeito, sem isso, que se dirá que é o homem? Todo o seu estado depende desse ponto imperceptível. E como se apercebeu disso, de vez que é uma coisa acima de sua razão, e que sua razão, bem longe de inventar por suas vias, afasta-se quando ela se lhe apresenta? Pág. 9.

Não concebemos nem o estado glorioso de Adão, nem a natureza do seu pecado, nem a transmissão que dele se fez em nós. São coisas passadas no estado de uma natureza toda diferente da nossa e que vão além da nossa capacidade presente. Tudo isso nos é inútil saber para sair dele; e tudo o que nos importa conhecer é que somos miseráveis, corruptos, separados de Deus, mas religados por Jesus Cristo; e é disso que temos provas admiráveis sobre a terra. Págs. 9-10.
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O cristianismo é estranho: ordena ao homem que reconheça que é vil e até abominável; e ordena-lhe que queira ser semelhante a Deus. Sem esse contrapeso, essa elevação o tornaria horrivelmente vão, ou esse abaixamento o tornaria horrivelmente abjeto [desprezível].

A miséria persuade o desespero; o orgulho inspira a presunção. A encarnação mostra ao homem a grandeza de sua miséria pela grandeza do remédio de que ele necessita.

Não se acha, na religião cristã, um abaixamento que nos torne incapazes do bem, nem uma sanidade isenta do mal. Não há doutrina mais própria ao homem do que essa, que o instrui de sua dupla capacidade de receber e perder a graça, por causa do duplo perigo a que sempre está exposto, de desespero ou de orgulho.

Os filósofos não prescreviam sentimentos proporcionais aos dois estados. Inspiravam movimentos de grandeza pura, e não é esse o estado do homem. Inspiravam movimentos de baixeza pura, e não é esse o estado do homem. São necessários movimentos de baixeza, não por natureza, mas por penitência; não para ficar neles, mas para chegar à grandeza.

São necessários movimentos de grandeza, não por merecimento, mas por graça, e depois de se ter passado pela baixeza.

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A última tentativa da razão é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam. Revelar-se-á fraca se não chegar a conhecer isso. É preciso saber duvidar onde é preciso, afirmar onde é preciso, e submeter-se onde é preciso. Quem não faz assim não entende a força da razão. Há os que pecam contra esses três princípios, ou afirmando tudo como demonstrativo, não precisando ser conhecido por demonstrações; ou duvidando de tudo, não precisando saber onde é necessário, submeter-se; ou submetendo-se a tudo, não precisando saber onde é necessário julgar.

Dois excessos: excluir a razão, só admitir a razão.

Diz bem a fé o que não dizem os sentidos, mas não o contrário do que vêem estes. Ela está acima e não em oposição. Pág. 10.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Pensamentos de Pascal N°. II

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Saibam, ao menos, que religião combatem, antes de combatê-la.
Nas Escrituras, em suma, se trabalha igualmente para estabelecer duas coisas: que Deus estabeleceu na Igreja marcas sensíveis para ser reconhecido pelos que o procurarem sinceramente, e que, no entanto, as cobriu de tal forma que só será percebido pelos que o procurarem de todo o coração. Pág. 1.
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Que se reflita sobre isso e se diga, depois, se não é indubitável que o único bem da vida presente é a esperança de uma vida futura; que só somos felizes na medida em que dela nos aproximamos; e que, não havendo mais infelicidades para os que têm uma inteira certeza da eternidade, também não há felicidade para os que não possuem luz alguma.
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Com efeito; a fé cristã não visa, principalmente, senão a estabelecer estas duas coisas: a corrupção da natureza e a redenção de Jesus Cristo.
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O mesmo homem que passa tantos dias e tantas noites cheio de cólera e de desespero por ter perdido um cargo, ou por alguma ofensa imaginária à sua honra, sabe também que vai perder tudo com a morte, sem que por isso se inquiete ou se comova. É uma coisa monstruosa ver, num mesmo coração e ao mesmo tempo, essa sensibilidade pelas menores coisas e essa estranha insensibilidade pelas maiores. Pág. 2.
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A verdadeira religião deve ter por marcas obrigar a amar seu Deus. Isso é bem justo. No entanto, nenhuma outra como a nossa o ordenou; a nossa o fez. Ela deve ainda ter conhecido a concupiscência (do homem) e a impotência (em que ele próprio se encontra para adquirir a virtude); a nossa o fez. Deve indicar os remédios para isso, um dos quais é a prece. Nenhuma (outra) religião pediu (jamais) a Deus que o amasse e o seguisse. Pág. 5.

As outras religiões, como as pagãs, são mais populares, porque se exteriorizam: não são, porém para as pessoas hábeis. Uma religião puramente intelectual seria mais proporcionada aos hábeis, mas não serviria ao povo. Só a religião cristã é proporcionada a todos, sendo composta de exterior e de interior. Ela eleva o povo ao interior e baixa os soberbos ao exterior, não sendo perfeita sem os dois, pois é preciso que o povo entenda o espírito da letra e que os hábeis submetam o seu espírito à letra (praticando o que há de exterior). soberbos ao exterior, não sendo perfeita sem os dois, pois é preciso que o povo entenda o espírito da letra e que os hábeis submetam o seu espírito à letra (praticando o que há de exterior). Págs 5-6.

Nenhuma outra (religião, a não ser a cristã) conheceu que o homem é a mais excelente criatura (e ao mesmo tempo a mais miserável). Pág. 6.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Pensamentos de Pascal N°. I

Introdução


Uma nova série de artigos do blog Arauto do Advento está começando. Desta vez conheceremos textos seletos do ilustre cientista Blaise Pascal sobre Religião. Serão vários números de artigos contendo o que tem de melhor em sua obra prima Pensamentos.                                                                                                            
Acreditamos sinceramente que será de grande valia ao leitor vários princípios religiosos levantados pelo autor durante o livro, ficando desde já também a ressalva quanto ao blog Arauto do Advento não concordar com todos os pontos de vista, interpretações, inferências do autor; seja em partes citadas ou não citadas do livro. Entretanto o entendimento do editor deste blog é de que Pascal viveu piamente sua vida cristã, tendo aceitado toda revelação vinda a ele, em sua época. Portanto, não devemos nos esquecer de que hoje vivemos no limiar da história da humanidade, e cumpre ser fiel em cada ponto revelado da Verdade Presente.                                                       
Apesar do valor inestimável desta obra, não devemos concluir que não há erros, mas cumpre a nós seguir o conselho do apóstolo Paulo: “Mas ponde tudo à prova. Retende o que é bom” (I Tessalonicenses 5:21).

Biografia do Autor


Blaise Pascal nasceu em Clermont, no dia 19 de junho de 1623. Filho de Etienne Pascal e Antoinette Begon, ficou órfão de mãe aos três anos de idade. Suas extraordinárias qualidades de inteligência, reveladas desde os primeiros anos da infância, tornaram-se todo o orgulho do pai de Pascal, que quis encarregar-se pessoalmente de sua educação. O jovem Pascal manifestou, desde logo, um pendor excepcional pelas matemáticas, a tal ponto que, segundo sua irmã Gilberte, chegou a descobrir os fundamentos da geometria euclidiana.
Aos dezesseis anos de idade, escreveu um tratado de tal profundeza que se dizia não ter sido escrito outro, depois de Arquimedes, que se lhe pudesse comparar. Esse tratado despertou o entusiasmo de Descartes. Enquanto isso, continuava Pascal os seus estudos do latim e do grego, nos quais seu pai o havia iniciado, e, nos intervalos, dedicava-se também à lógica, à física, à filosofia. Aos dezoito anos de idade, inventou uma máquina de calcular.
Aos vinte e três, já era senhor de imenso cabedal científico, tendo descoberto várias leis sobre a densidade do ar, o equilíbrio dos líquidos, o triângulo aritmético, o cálculo das probabilidades, a prensa hidráulica, etc. Um dia, porém, na ponte de Neuilly, foi vítima de um acidente e começou a sofrer de alucinações, vendo aparecer sempre diante de si um abismo aberto para tragá-lo. Desde então, tornou-se profundamente religioso, renunciou a todos os seus conhecimentos e, passando a viver solitariamente, internado na abadia de Port-Royal, dedicou-se exclusivamente à defesa do cristianismo. Dá-se, hoje, o nome de abismo de Pascal à dificuldade que certos problemas sociais ou morais oferecem em sua elucidação.
A expressão grão de areia de Pascal encontra explicação na seguinte passagem desta obra: "Cromwell teria destruído toda a cristandade, a família real se teria perdido e a sua se tornado poderosa como nunca, se não fosse um pequeno grão de areia que se introduzira em sua uretra. E até Roma teria tremido sob o seu domínio, se pequeníssima areia, que não valia nada em outro lugar, introduzindo-se ali, não o tivesse morto, derrubando sua família e restabelecendo o rei." Assim, Com aquela locução, se exprime a idéia de que pequenas causas podem acarretar grandes efeitos.
Toda a vida de Pascal é tida como um grande exemplo de sofrimento resignado e de piedade. Morreu com trinta e nove anos, no dia 19 de agosto de 1662.

A partir do próximo número começaremos a ver partes seletas de seu livro.
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