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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Passeio Socrático no Mundo Pós-Moderno

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz nos seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos dependurados em telefones celulares; mostravam-se preocupados, ansiosos e, na lanchonete, comiam mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, muitos demonstravam um apetite voraz. Aquilo me fez refletir: Qual dos dois modelos produz felicidade? O dos monges ou o dos executivos?

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: “Não foi à aula?” Ela respondeu: “Não; minha aula é à tarde”. Comemorei: “Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir um pouco mais”. “Não”, ela retrucou, “tenho tanta coisa de manhã...” “Que tanta coisa?”, indaguei. “Aulas de inglês, balé, pintura, piscina”, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: “Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’”

A sociedade na qual vivemos constrói super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas muitos são emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram que, agora, mais importante que o QI (Quociente Intelectual), é a IE (Inteligência Emocional). Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma próspera cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: “Como estava o defunto?”. “Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!” Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilidade coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: “Se tomar este refrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!” O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma su­gestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globocolonizador, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer de uma cadeia transnacional de sanduíches saturados de gordura…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Estou apenas fazendo um passeio socrático.” Diante de seus olhares espantados, explico: “Sócrates, filósofo grego, que morreu no ano 399 antes de Cristo, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”

(Frei Beto, Fonte: Amaivos)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Testemunho que Bates nos Deixa à Favor da Temperança

José Bates, ex-capitão de navio, homem singular em vários aspectos, que antes de conhecer o sábado lutou pela temperança, foi um pioneiro dos adventistas crentes no sábado do sétimo-dia, e, além disso, seu papel como um dos fundadores da Igreja foi decisivo principalmente influenciando doutrinariamente a Igreja; ele apresentou o sábado com grande vigor convencendo a muitos, aprofundou o entendimento da mensagem do terceiro anjo em ligação com o tema do grande conflito entre Cristo e Satanás, e que no centro desta luta estava a identificação e obediência do verdadeiro sábado (sétimo dia), desenvolvendo, por conseguinte, o tema do selamento do povo de Deus. 

No ano de 1821 José Bates começou a ter a consciência despertada para a temperança; ele havia se tornado comandante de navio há pouco tempo, quando começou a rejeitar o tomar bebidas alcoólicas, hábito tão comum aos homens do mar, inclusive o beber as mais fortes. Ele começou sua reforma impondo o limite de um copo por dia, e isso ele fazia ao meio-dia, mas ao decorrer o tempo ele começou a sentir necessidade tamanha, que preferia tomar um copo de bebida a se alimentar. Foi assim que em vez de retroceder, decidiu por fim nunca mais beber outro copo. Apenas bebia vinho em companhia de outros por isso ser elegante, entretanto não demorou muito para até mesmo o uso do vinho fosse retirado de sua dieta.

Também ficou convencido do erro de fumar, e resolveu então não usar fumo de nenhum modo. Ele teve duras batalhas que enfrentar, principalmente devido aos diversos hábitos errôneos desta vida de marinheiro, a linguagem torpe, a blasfêmia, foram defeitos de caráter que ele se esforçou para se libertar. 

Já antes do ano de 1838 se convenceu dos efeitos nocivos do chá e café, levando a tanto ele como a esposa a suprimir tais itens da mesa. Abandonaria também a alimentação cárnea em 1843.

Em certa viagem Bates sofreu intenso sofrimento mental, talvez ele tenha sofrido algum tipo de depressão, de qualquer forma, Bates nessa ocasião entregou totalmente seu coração a Jesus, entendendo que por si só não poderia vencer as lutas contra as tendências corruptas.

Certo dia, em paz de espírito a bordo do navio ele deixou registrada uma súplica a Deus, ele escreveu: “Usa-me, Senhor, eu Te Imploro, como um instrumento de Teu serviço; Conta-me entre o Teu povo peculiar” (Em História do Adventismo, pág. 80). Ele não imaginava que esta oração seria atendida em anos futuros de forma surpreendente.

Naquela época a maioria dos pioneiros freqüentemente estavam enfermos; na verdade como John Andrews certa vez disse: “Imaginávamos que a dor de cabeça, dispepsia [indigestão], náusea, febre, etc. eram em sua maior parte, coisas totalmente fora de nosso controle” (Em História do Adventismo, pág. 216); o conhecimento deles quanto a necessidade de melhor alimentação e estilo de vida era mínimo se não inexistente.     

Por isso que provavelmente o único dos pioneiros que realmente tinha uma vida saudável era o velho capitão. Ele deixara de comer alimentos cárneos, manteiga, gordura, queijo, e bolos substanciosos muito açucarados.

Dele é dito que ficou doente apenas poucos dias na vida toda, além da sua breve enfermidade final.

Apesar de que soubesse muito bem o motivo de ter saúde, Bates preferiu testemunhar pelo exemplo quase sempre. Pouco ele disse a respeito de seu regime alimentar em público até que a luz finalmente raiou àquele movimento em 1863: quando Ellen White recebeu uma visão sobre reforma de saúde. Após isso, passou ele a falar mais livremente sobre o assunto.

No ano anterior a sua morte ainda desfrutava uma condição de saúde invejável; inclusive, neste ano ele assistiu um congresso relativo ao tema da reforma de saúde em Battle Creek.

Enquanto discutia-se o assunto, derrepente alguém se lembrou e exclamou: “Onde está o Pastor Bates? Ele é a pessoa que precisamos ouvir a respeito deste assunto”.

O idoso capitão estava sentado no fundo da igreja. Chamaram-no para o púlpito o estimado irmão com 79 anos de idade, mas ainda perfeitamente ereto e caminhando rapidamente até a plataforma.               

Ele relembrou suas experiências do passado e o resultado do abandono de um hábito nocivo após outro, até que estivesse livre de qualquer hábito que soubesse que era prejudicial. Testemunhou também estar totalmente livre de dores e mal-estar.

J. O. Corliss, presente nesta reunião, deu o seguinte testemunho acerca de Bates: “[Ele] ficou em pé como uma estátua de mármore e se movimentava com a leveza de um garoto. O auditório ficou tão eletrizado diante da eloqüência do idoso senhor que por um momento só se ouviam sonoros ‘améns’” (Em Retratos dos Pioneiros, pág. 57).    

Se nota em suma que apesar de que ele tivesse muito a falar sobre seus padrões de estilo de vida, falou muito pouco. Mas fez algo melhor: deu-nos um exemplo de viver saudável na prática, não meramente teórico; a simples presença dele era uma constante advertência a favor da temperança.

Dois anos após a morte de sua amada Prudence Nye, José Bates foi chamado ao descanso em 19 de março de 1872, aos 80 anos de idade. Foi sepultado ao lado da esposa em Monterey, Michigan.

Finalizando, uma mensagem final de uma resolução de pesar feita em uma reunião da Associação de Michigan, em homenagem a José Bates: “Embora lamentamos profundamente a nossa perda, relembraremos os seus conselhos, imitaremos suas virtudes e nos esforçaremos por encontrá-lo no reino de Deus” (Em Retratos dos Pioneiros, pág. 57).
[M. Borges]
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